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Maria Eliane Catunda de Siqueira

Longa permanência:
mudanças no ambiente, em práticas e atitudes

Tendo que a convivência e o cuidado prestado pela família devam ser priorizados, percebe-se, entretanto que a atenção ao idoso nas instituições de longa permanência é uma tradição marcante na realidade do envelhecimento brasileiro. Essa modalidade de proteção preenche a lacuna aberta pela impossibilidade da família atender às necessidades de seus idosos e pela falta de políticas públicas, visando apóia-la no cumprimento de seu papel, como previsto na Política Nacional do Idoso.

O atendimento prestado pelas instituições de longa permanência volta-se, portanto, para a parcela mais carente da população idosa e está presente na grande maioria de nossas comunidades, através dos tradicionais asilos e vilas vicentinas. Nessas instituições existe uma grande demanda por vagas, não só por parte de idosos de alta dependência, em busca de cuidados especiais, mas também idosos plenamente independentes alijados do mercado de trabalho e da proteção familiar em decorrência das transformações sócio-econômicas em curso na sociedade brasileira.

Há alguns anos atrás propusemos e acompanhamos em algumas dessas instituições em Minas Gerais, um programa de adequação ambiental às normas preconizadas pela Política Nacional do Idoso, respeitando a necessidade de atendimento a diferentes categorias de idosos, as limitações financeiras e considerando as mudanças ambientais como oportunidade de reflexão sobre as atividades desenvolvidas, os serviços prestados e as posturas adotadas em relação ao idoso e ao processo de envelhecimento.

O programa adotou como referência teórica os princípios ambiental-comportamentais desenvolvidos por Pynoss e Regnier (1992) relacionando-os a situações vivenciadas no dia a dia das instituições de longa permanência e propondo um processo de reflexão-ação para desenvolver as mudanças ambientais, de forma que elas fossem acompanhadas de novas atitudes e práticas que incorporassem as proposições do paradigma da inclusão social.

O processo de reflexão-ação voltando-se não só para a eliminação de barreiras físicas, como também para mudanças em atitudes e práticas discriminatórias que dificultam a manutenção da autonomia e independência do idoso institucionalizado, possibilita contemplar os aspectos psicológicos e sociais do envelhecimento. Permite também informar à comunidade onde se inserem as instituições sobre as perdas e limitações inerentes a esse processo, levando-a a se comprometer com a qualidade de vida de seus membros mais idosos.

O programa propõe que as intervenções ambientais sejam planejadas e acompanhadas por engenheiros e arquitetos, contando com a participação da diretoria, voluntários, técnicos, funcionários e idosos. Essa participação possibilita melhor identificação de barreiras físicas que dificultam as atividades diárias e põe em risco a segurança dos residentes, permite repassar aos profissionais que supervisionam as mudanças ambientais dados sobre as necessidades específicas do idoso, e compromete a todos na aceitação e prática das mudanças propostas.

As intervenções ambientais devem voltar-se para a prevenção de quedas, auxiliar nas condutas preventivas de depressão, angústia, dificuldade de concentração, desorientação espacial e garantir acima de tudo a autonomia e independência do idoso, como um pressuposto de boa qualidade de vida na velhice e passo fundamental no processo de sua inclusão social.

Tendo como principio norteador a reflexão-ação, o processo propõe também que as mudanças ambientais sejam planejadas e executadas gradualmente, permitindo a todos os envolvidos capacitarem-se e internalizarem novas formas de atuação e posturas frente ao idoso, tendo como referência o seu direito à autonomia.

Relaciona-se a seguir os princípios ambiental-comportamentais, citando-se como exemplo para discussão, em cada um deles, uma das questões discutidas no decorrer do processo de reflexão-ação, que julgamos ser comum à realidade da maioria das instituições de longa permanência e que serve de base para orientar as mudanças ambientais e discutir atitudes e práticas desenvolvidas por toda a equipe.

Privacidade: refere-se à necessidade individual de momentos de isolamento e de manutenção de espaço próprio, que não deve ser invadido sem autorização. Permite discutir: A conveniência de dormitórios individuais ou para até quatro idosos em relação à prática comum de uso de dormitórios coletivos.

Escolha, Controle e Autonomia: Oportunidade para fazer escolhas e controlar eventos que influenciem sua própria vida. Observa-se que o idoso é menos satisfeito e mais dependente em ambiente restritivo, podendo, por outro lado, em ambiente adequado, desenvolver senso de competência e percepção de controle. Discutir: A possibilidade de adoção de refeições em sistema "self service" em substituição ao prato pronto normalmente oferecido ao idoso.

Orientação Espacial - O ambiente deve incentivar o senso de orientação e reduzir a sensação de confusão e sentimentos de desorientação. Discutir: Implantação de mecanismos de orientação para fácil acesso a quartos, banheiros, áreas de uso coletivo, refeitório, ambulatório.

Segurança - O ambiente deve ser planejado e mantido visando a completa segurança do idoso. Discutir: A importância da construção horizontal, de rampas em substituição a escadas, de piso antiderrapante, de material apropriado na construção.

Funcionalidade - O ambiente deve estar adaptado às condições físicas e psíquicas do idoso. Idoso com comprometimento cognitivo, artrite, seqüelas de AVC entre outros, apresenta problemas para subir escadas, abaixar-se, ficar em pé, sentar-se, utilizar utensílios, abrir e fechar portas e janelas. Discutir: A adaptação de cadeiras, armários, maçanetas, puxadores, talheres às necessidades específicas do idoso.

Estimulação - O ambiente ao mesmo tempo em que seguro deve ser estimulante. Ambiente estimulante contribui para combater depressão e passividade do idoso. Discutir: As atividades realizadas no asilo, como atividades sociais, religiosas, artesanais, educativas, relacionando-as com os interesses, vivências, nível educacional e condições físicas do idoso.

Aspectos Sensoriais - Mudanças na visão, audição, olfato, tato podem ser atenuadas por ambiente adequado. Ambiente com alto nível de ruído e baixa luminosidade atrapalha o senso de segurança, de autonomia e socialização. Discutir: A localização das construções em relação à luz solar, especialmente quartos e enfermarias.

Familiaridade - Ambientes que usam referências históricas e soluções baseadas na tradição, oferecem um senso de familiaridade e continuidade. Discutir: Construções e reformas, decoração de ambientes, levando em conta a disponibilidade financeira, as necessidades do idoso, as condições climáticas e costumes regionais, sem prejuízo da segurança e funcionalidade.

Estética e Aparência - O ambiente deve ser planejado para parecer atrativo, estimulante e não institucional. A estética e aparência podem contribuir para aumentar o preconceito contra o idoso institucionalizado, ou transmitir uma imagem positiva tanto do idoso, como da instituição. Discutir: O cuidado e o melhor aproveitamento de áreas internas e externas. Todas as intervenções nessa área, além da segurança e funcionalidade, devem privilegiar a contribuição do idoso e respeitar seus costumes e tradições.

Personalização - Tornar o ambiente personalizado e marcado como propriedade individual. Auto-expressão ou personalização reforça na pessoa idosa o senso de identidade, de qualidades, características e experiências únicas. Discutir: O respeito à privacidade do idoso, como princípio que deve orientar todas as ações.

Adaptabilidade - O ambiente deve ser planejado de forma a ser flexível e adaptável às características e necessidades do idoso. Discutir: A flexibilidade para adaptações ambientais, visando acompanhar o envelhecimento progressivo dos idosos atendidos e questões relativas ao atendimento da velhice tardia (mais de 80 anos).

Liste dentro desses princípios outras questões que possam ser discutidas e possam orientar as intervenções ambientais e as mudanças em atitudes e práticas frente ao idoso institucionalizado. 
 

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Maria Eliane Catunda de Siqueira
 

Assistente social, professora da PUC Minas, Mestre e doutoranda em Gerontologia pela UNICAMP, integrante do Núcleo de Estudos Avançados em Psicologia do Envelhecimento da Faculdade de Educação da UNICAMP, coordenado pela Profa. Dra. Anita Liberalesso Neri.

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