Caminhos possíveis

O escritor e
gerontólogo Pedro Paulo Monteiro lista os grandes
desafios que o envelhecimento suscita
Por Pedro Paulo
Monteiro*-
pesquisador mentor
Desde 1997 quando
iniciei o mestrado em Gerontologia até hoje percebo que sempre tenho
de retornar a questões básicas, ou seja, o velho se reveste de novo
pelo desconhecimento. Em todos os lugares em que ministro palestras,
entrevistas para revistas, rádio e TV, participação de bancas de
monografias, workshops de consultoria para empresas, aulas de
gerontologia em faculdades, sempre tenho de partir dos mesmos pontos:
- Ser velho é questão de perspectiva temporal. Isso significa
que todos nós somos velhos porque o tempo não pára;
- Velhice e envelhecimento não são sinônimos. Costumo usar uma
analogia que me facilita a explicação: a velhice é a estação
ferroviária, o envelhecimento é o trem em movimento;
- Não existe receita de equilíbrio porque a evolução é inerente aos
seres humanos. Por isso, toda receita antienvelhecimento é ilusória.
Podemos envelhecer com mais saúde, mas não podemos impedir o processo
de passagem;
- A morte é natural como a vida. Morremos aos poucos até terminarmos
de morrer. Gosto de pensar que estarei morto ao completar este texto.
Assim posso renascer, renovar, recriar;
- Velhice não é doença. Saúde e doença são estados de flutuação de um
processo integral. A saúde é como a felicidade, difícil de ser
definida. Como a felicidade, percebemos nossa saúde quando algo
melhora de repente, e nos rejubilamos com o deleite do acontecimento.
Vivemos em um mundo doente, e se somos parte dele, nós só podemos
alcançar estados momentâneos de saúde. Se ser saudável é ser íntegro,
logo é impossível ser saudável na falta;
- Envelhecer é continuar e mudar. Nenhum dia é como o outro. A crença
na repetição está na falta de consciência de si mesmo. Quando somos
conscientes de nossa presença no presente vemos o nosso cotidiano
sempre com um novo olhar.
Sem dúvida, pensar o envelhecimento é pensar a complexidade de
fatores que nos faz ser quem somos. Nunca seremos capazes de
deslumbrar o todo pelo pensamento partido. Ainda temos muito para
aprender e ensinar. A meu ver, o aprendizado do envelhecer tem de
partir do aprendizado da vida, pois envelhecer e viver são processos
indissociáveis.
Não podemos compreender o envelhecimento por uma perspectiva externa.
Sem a reflexão acerca de nosso próprio estado de passagem não
deslumbraremos o que significa a vida. Para compreender o que é ser
velho é preciso também compreender o que não é ser velho. Se
conseguirmos atingir pelo menos parte dessa compreensão nós
alcançaremos o despertar. Assim, teremos a oportunidade de descobrir
que vemos mais com as nossas crenças do que com os nossos olhos.
*Pedro Paulo Monteiro é fisioterapeuta e terapeuta corporal,
gerontólogo, escritor, autor de Envelhecer: histórias, encontros e
transformações, Quem somos nós? - O enigma do corpo e As cores da
vida.
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Fonte: Mais de 50,
http://www.maisde50.com.br/artigo.asp?id=6381


