Talentos desperdiçados

 

Estudo da UnB aponta doenças mentais como as que mais roubam anos de trabalho
dos aposentados por invalidez

 

Distúrbios mentais são as maiores causas do afastamento, afirma Anadergh

 

Pendurar as chuteiras por problemas de saúde antes do tempo regulamentar não é vantagem para nenhum dos lados. Enquanto a empresa perde um empregado experiente, o trabalhador tem potencialidades e relações sociais restringidas. Mas, em alguns casos, não há outro caminho a seguir a não ser o da chamada aposentadoria por invalidez. No Brasil, os pesquisadores fazem um alerta: atualmente, os problemas que fazem os trabalhadores perderem mais anos de vida profissional estão relacionados à saúde mental. Entre eles, distúrbios como depressão e esquizofrenia.

 

A professora do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília, Anadergh Barbosa-Branco, analisou dados do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) e descobriu que, em 2004, 9,6 mil trabalhadores se aposentaram por invalidez, com causas relacionadas ao trabalho (acidentária). Desses, 289 tinham transtornos mentais e de comportamento, sendo 92 mulheres. Levando em conta as idades estabelecidas para aposentadoria (65 anos para homens e, 60 para mulheres), eles perderam uma média de 17,5 anos potenciais de trabalho e/ou de contribuição previdenciária.  

 

Esse índice só não é maior do que o de doenças não identificadas, que levaram à perda de 22,5 anos de trabalho nos casos de aposentadoria por invalidez acidentária. Seguidas dos transtornos mentais e de comportamento, as doenças do sistema nervoso, como traumatismo, Alzheimer e Parkinson, estão em terceiro no ranking, levando à perda média de 16 anos potenciais de trabalho. As doenças de ouvido, oesteomusculares e infecciosas/parasitárias vem logo depois, provocando, respectivamente, a perda média de 15, 14 e 13 anos potenciais de trabalho respectivamente.

 

Além de ter a maior média de anos potenciais de trabalho perdidos, as doenças mentais muitas vezes desencadeiam outros problemas como acidentes de trabalho, hipertensão, problemas musculares, além de refletir as conseqüências de doenças do sistema nervoso. “A empresa que investe no bem-estar dos seus trabalhadores não é boazinha, é inteligente. Estresse, assédios (moral ou sexual), condições precárias de trabalho e até mesmo salários baixos contribuem para a desestabilização mental  do trabalhador”, conclui Anadergh.

 

Cálculo

 

O índice de anos potenciais de trabalho perdidos é calculado subtraindo-se a idade no ano da aposentadoria por invalidez, da idade legalmente estabelecida para aposentadoria (60 anos, se o trabalhador for do sexo feminino, e 65 anos, se for do sexo masculino). Ou seja, uma mulher que se torna aposentada por invalidez aos 45, perde 15 anos potenciais de trabalho. Um homem, 20.

 

Perfil dos trabalhadores

 

No estudo sobre aposentadoria por invalidez, a professora Anadergh buscou também definir o perfil dos trabalhadores que se aposentaram por invalidez, acidentária ou não, entre 2003 e 2004. Nesse período, foram concedidas 415,2 mil aposentadorias por invalidez, sendo 95,5% consideradas como não relacionadas ao trabalho. O índice baixo de aposentadorias por invalidez ligadas ao trabalho seria conseqüência da falta de caracterização adequada.

 

“Há despreparo por parte dos médicos em geral, e particularmente dos peritos para a caracterização da relação entre a doença e o trabalho, além do desinteresse por parte da empresa no estabelecimento dessa ligação. O trabalhador tem sido até então a parte mais vulnerável desse processo, pois tem que provar que a função realizada no serviço teve relação com a doença. Brevemente porém, em muitas situações quem terá que provar que não há relação entre uma doença ou acidente e as condições de trabalho será a empresa”, avalia a coordenadora do Laboratório de Saúde do Trabalhador da universidade.

 

Segundo ela, mais da metade (59,9%) das aposentadorias por invalidez autorizadas entre 2003 e 2004 foi concedida a trabalhadores do sexo masculino, com idade média de 50,1 anos. 

 

As principais causas de aposentadoria por invalidez acidentária foram inflamações nas articulações e tendões (10,2% dos casos), seguidas por seqüelas de traumatismos de membros superiores (5,6% dos casos), e de inferiores (5,4%).

 

Ao estudar os números regionais, a pesquisadora da UnB descobriu que as unidades federativas com maior prevalência de aposentadoria por invalidez  são Bahia, Minas Gerais e Tocantins. O caso da Bahia é o que mais chama a atenção. De cada 10 mil trabalhadores do estado, 50,4 foram aposentados por invalidez.

 

A prevalência nacional fica em 25,3 para cada 10 mil trabalhadores. De acordo com Anadergh, outros 13 estados estão acima desse índice. Se o governo quiser estabelecer prioridades na fiscalização de irregularidades, essa lista oferece boas pistas.

 

Contato: Professora Anadergh Barbosa-Branco, telefone (61) 3307 3373 ou e-mail anadergh@unb.br

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Fonte: www.unb.br