Serviço social e terapia ocupacional:

trabalho interdisciplinar no combate à depressão em

uma instituição de longa permanência para idosos

 

Joice Ferreira [1]

Michelle Bertóglio Clos[2]- pesquisadora mentora,

Diretamente para o Portal

 

 

Resumo :A incidência de depressão na população idosa vem despertando interesse científico, na medida que se busca alternativas para seu enfrentamento. Por entendermos que a depressão no idoso institucionalizado tem relação direta com aspectos psicossocias, o presente estudo apresenta o trabalho interdisciplinar  do Serviço Social e da Terapia Ocupacional no combate à depressão em uma Instituição de Longa Permanência na cidade de Porto Alegre/RS. A partir da avaliação adaptada da Escala de depressão geriátrica Yesavage (J. A. et al, 2006), obtemos como resultado do trabalho desenvolvido entre os anos de 2004 a 2006, a redução de cerca de 50% na incidência de depressão leve a moderada, sendo importante ressaltar a não incidência de depressão grave neste espaço institucional. Deste modo, o estudo ressalta a importância do trabalho interdisciplinar considerando a multiplicidade do idoso e seus aspectos biopsciossocias, além de

Palavras chave: Idoso, Institucionalizado, depressão, Serviço Social e Terapia Ocupacional.

 

 

 

Apresentação

 

O presente estudo é a sistematização de informações coletadas no “Recanto São Francisco”, lar que abriga 52 idosos, 21 homens e 21 mulheres, que compõe o trabalho assistencial da entidade Amparo Santa Cruz – Orionópolis, na cidade de Porto Alegre/RS. Esta entidade é reconhecida como de utilidade pública nas esferas Federal, Estadual e Municipal, prestando atendimento ao idoso desde 1986.

 

O Serviço Social está presente neste lar desde sua fundação, todavia a Terapia Ocupacional iniciou atividade no ano de 2004, mobilizando interesse para melhoria da qualidade de vida dos idosos residentes. Na coleta de dados, no desenvolvimento de atividades, bem como na avaliação da escala de depressão, contamos com a participação de estagiários de ambas as áreas, que muito contribuíram para o resultado final do estudo.

 

Utilizamos como base de referência o “Estudo comparativo sobre a prevalência de sintomas depressivos em idosos hospitalizados,  institucionalizados e residentes na comunidade”, realizado pelo departamento de medicina da Universidade de Maringá (PORCU et al, 2006).

 

Introdução

 

O envelhecimento não é apenas um processo natural presente em todos os tipos de ciclo de vida, mas um conjunto de processos que compreende múltiplas dimensões, sendo elas cronológica, biológica, psicológica, política, cultural e social. O contexto social é importante para compreender questões referentes às modificações decorrentes do processo. Envelhecer é passar pelos anos e perceber as alterações e as conseqüências do tempo na própria vida. 

 

A partir do momento em que se entende que os critérios para permanência em uma instituição superam a perspectiva econômica e passa a considerar as multiplicidades dos problemas sociais, tem-se um novo perfil de idoso institucionalizado. Atualmente não existem dados concretos sobre o número de instituições desta natureza no Brasil, contudo, segundo Lima (2005), há uma estimativa do ano de 1985, que exista pelo menos, uma instituição de cunho asilar em cada município brasileiro e que cerca de 10% da população idosa do país estaria institucionalizada.

 

De acordo com Chopra (1998), o tempo existe em três dimensões que se constituem em cronológico, biológico e psicológico. O processo de envelhecimento também se dá nestas três dimensões, de modo que o vazio no tempo referido pelo idoso refere-se apenas a duas destas dimensões: o cronológico e o psicológico.  São as horas que demoram a passar e quando o fazem, nem sempre possuem significado.

 

Também Heller fala sobre o cotidiano e diz que “a vida cotidiana é a vida do homem inteiro, ou seja, o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade” (1992, p.17). Mas em que momento na vida institucionalizada o sujeito tem condições de exercer este viver pleno, em que, segundo a mesma autora, pode colocar “‘em funcionamento’ todos os seus sentidos, todas as suas capacidades intelectuais, suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, paixões, idéias, ideologias” (1992, p.17). É neste cerceamento de atividades que os significados da própria existência vão se perdendo e a morte social, anterior à morte biológica, acontece, e o resultado é: sujeitos ausentes da própria vida.

 

É necessário fazer uma releitura do que está posto e refletir sobre o sentido deste tipo de instituição na sociedade atual. Considerando que manter-se vivo relaciona-se à lógica do cuidado com o sujeito e urge pelo entendimento de cuidar como um ato singular, com o atendimento das necessidades subjetivas dos idosos.

 

A velhice na sociedade atual é um processo que torna-se, ainda mais complexo e limitador quando institucionalizado. As rupturas e as perdas no momento da institucionalização configuram-se de tal maneira que o direito de envelhecer com dignidade, respeito e autonomia tende a ser sublimado. E isto incide diretamente na incidência de depressão em idosos institucionalizados.

 

Para Faleiros, autonomia significa “a capacidade de reproduzir-se na complexidade da historicidade e da cotidianidade das mediações de poder e das energias e recursos próprios [...] na recusa da alienação, da tutela, do controle” (2001, p. 62). Contudo aquele que passa a residir em uma Instituição Total (GOFFMAN) passa a ser tutelado e controlado por diversos tipos de mecanismos que o impedem de tomar as decisões sobre seus desejos mais simples, como o horário de comer ou o que vestir.

A velhice instituída configura-se por ser aquela asilada, afastada dos olhos da sociedade e reservada apenas aos “caridosos” que se dispõe a ajudar os “outros”. O idoso, quando institucionalizado, em grande parte das situações vai, aos poucos, sendo afetando negativamente e passa a perder a identidade, logo adiante as capacidades de pensar e decidir, quando se vê limita-se apenas a “receber” com gratidão, e termina como número em estatísticas e percebe-se como alma confinada nada espera além do silêncio e da morte.

 

Os idosos ao ingressarem em uma ILPI, passam por processos de ganhos e de perdas: ganham o rótulo de “abandonado” e “carente” e perdem elementos fundamentais para própria vida, que compreendem a privacidade, a individualidade, a autonomia, o pertencimento e se encerra no direito de ir e vir.

 

Esta busca por dar sentido à própria existência não é simples e, portanto, exige dos profissionais e das estratégias que utiliza, equilíbrio e competências relacionais que norteiem usuário e profissional na direção de uma intervenção de qualidade, com alternativas viáveis para a transformação da realidade presente. É nesta busca que se percebe o impacto da institucionalização e a incidência de depressão na vida dos sujeitos, o momento em que a história de vida configura-se como o único bem do idoso asilado.

 

As atividades ocupacionais existem nos espaço da instituição e em alguns momentos são realizadas em espaços da comunidade, contudo a apatia, agravada pelos processos de isolamento, depressão e/ou demência, enclausuram o idoso e o confinam a um envelhecimento que se contenta em aguardar apenas o tempo passar.

 

É função da Terapia ocupacional restabelecer as perdas físicas e sociais que causam desajustes no idoso. Na atuação com o idoso a TO age como facilitador que capacita o mesmo a fazer o melhor uso possível das capacidades remanescentes, a tomar suas próprias decisões e lhe assegurar uma conscientização de alternativas realistas.

 

 Através do estímulo ao auto-conhecimento e auto-cuidado, gera-se uma melhoria na auto-estima, e o idoso tem condições de lidar com seus potenciais para  a partir daí construir uma maneira própria de se relacionar com o meio social, atuando nele mais autonomamente. Basicamente, procura-se que o idoso tenha um desempenho mais independente possível, enfatizando as áreas de auto-cuidado, do trabalho remunerado ou não, do lazer, da manutenção de seus direitos e papéis sociais.

 

 A atividade é um meio no qual se vivencia significado existencial através da expressão de valores, a auto-responsabilidade, da (re) descoberta de competências e habilidades, do compromisso, e da sistematicidade, podendo envolver ainda convívio social pautado por bem-estar. É com o objetivo de modificar a realidade descrita anteriormente que as áreas de Serviço Social e Terapia Ocupacional se propõe a realizar um trabalho interdisciplinar na ILPI.

 

Objetivo geral

 

Analisar a relação entre a ocorrência de depressão nos idosos institucionalizados e as atividades interdisciplinares.

 

Objetivos específicos

 

1.       Avaliar o papel do Serviço Social e da Terapia Ocupacional no combate a depressão no contexto asilar.

2.       Compreender como a atividade ocupacional mobiliza o idoso institucionalizado.

 

Metodologia

 

Realizar de atividades e coletar de dados durante o período de 2004 a 2006. São estas:

Ø Atividade física/funcional (treino e reabilitação de atividades de vida diária – AVD’S);

Ø Dinâmicas de grupo adaptadas ao idoso, com objetivo de desenvolver expressão de sentimentos e estimular relações interpessoais;

Ø Reabilitação cognitiva e oficinas de memória, com o objetivo de estimular concentração, memória, atenção, raciocínio lógico e capacidades residuais através de contos, filmes, notícias, técnicas de memória, jogos, treino de atenção, etc;

Ø Atividades expressivas – manuais, artesanais, artísticas;

Ø Oficinas de atualidade com o objetivo de estimular o contato com a realidade, leitura e comentários de noticias de jornais, revistas e temais importantes, afim de trabalhar aspectos cognitivos;

Ø Circuito de palestras – colocar o idosos participante em eventos referentes a prevenção de saúde e melhoria da qualidade de vida;

Ø Acompanhamento terapêutico ;

Ø Atividades externas à instituição, em atividades culturais, de lazer para estimular contato coma  realidade e autonomia;

Ø Realização de grupos de TO 3x por semana;

Ø Avaliação da escala de depressão pela TO;

Ø Acompanhamento individual pelo Serviço Social e

Ø Resgate e reconstrução de vínculos afetivos e familiares.

 

Resultados

 

Ano 2004 – de 28 idosos de um universo de 56, sendo avaliados 8 que apresentaram quadro de depressão  moderada a leve.

 

 

Ano 2006 – de 52 idosos avaliados 8 apresentam quadro de depressão leve a moderado, 32 não apresentam quadro depressivo e 12 não tem condições de responder a avaliação em função de demência  e problemas auditivos. Nenhum caso de depressão severa foi constatado. Isto se torna relevante na medida em que usamos como base comparativa um estudo realizado pelo departamento de medicina de da Universidade de Maringá (PORCU, 2006) no qual 60% dos idosos institucionalizados apresentaram quadro de depressão severa.

 

Na instituição pesquisada foi constatado que em 2004 cerca de 29% dos residentes apresentaram quadro de depressão, tendo este número reduzido para 15% no ano 2006, com o trabalho interdisciplinar da Terapia Ocupacional e do Serviço Social. Consideramos relevante este estudo, uma vez que conseguimos apontar dados concretos sobre a importância de atividades ocupacionais e acompanhamento psicossocial no combate à depressão de idosos residentes em uma Instituição de Longa Permanência.

 

A TO contribui para o desenvolvimento de atividades importantes para a auto-estima; o estimulo às relações sociais, a vinculação e a interação entre sujeitos são os objetivos do Serviço Social quando buscamos combater a incidência de depressão neste contexto social. Idosos satisfeitos, motivados e com um projeto de vida adoecem menos e contribuem de modo positivo na ressignificação do papel das instituições asilares no atual contexto social.

 

Referências

 

CHOPRA, Dupak.  Corpo sem idade, mente sem fronteiras: a alternativa quântica para o envelhecimento. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 1989.

GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional. Barcelona: Kairos, 1997.

HELLER, Agnes. O Cotidiano e a História. 4.ed. Traduzido por Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

J. A. et al. Escala de depressão geriátrica: adaptado de Yesavage. Disponível em: http://www.alzheimermed.com.br/m3.asp?cod_pagina=1052. Acesso em: 10 jan. 2006.

LIMA, Maria Amélia Ximenes Correia. Retratos de asilo: termos de institucionalização. Disponível em: www.portaldoenvelhecimento.com.br. Acesso em: 12 out. 2005.

PORCU, et al. Estudo comparativo sobre a prevalência de sintomas depressivos em idosos hospitalizados,  institucionalizados e residentes na comunidade. Disponível em:  http://64.233.187.104/search?q=cache:GYyD5I3VezsJ:www.ppg.uem.br/Docs/ctf/Saude/2002/10
Mauro%2520Porcu_Estudo%2520comparativo_216_02%2520Resumo.pdf+Estudo+comparativo+sobre
+a+preval%C3%AAncia+de+sintomas+depressivos+em+idosos+hospitalizados,+institucionalizados+e+
residentes+na+comunidade&hl=pt-BR&gl=br&ct=clnk&cd=1. Acesso em: 8 juh. 2006.

 


[1]Terapeuta ocupacional, CREFITO 134LTT/TO – 5ª região. Aluna do curso de pós-graduação em Gerontologia Social/UFRGS. E-mail: michelleclos@hotmail.com

[2] Assistente Social, CRESS 6263 – 10ª região.