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a influência da TV aberta sobre os hábitos de consumo dos idosos
Guilherme Borba Gouy*
Resumo: O artigo em questão se propõe a fornecer subsídios para uma melhor análise das alterações nos hábitos de consumo que se processam no âmbito da terceira idade – parcela da população que, desde a década de 1960, apresentou uma taxa de crescimento bastante elevada – a partir da prática cada vez mais comum de assistir à TV. Para tanto, o trabalho co-relaciona fatores socioeconômicos (grau de escolaridade, renda bruta, etc.) com hábitos desenvolvidos pelos idosos da Universidade Aberta à Terceira Idade[2] (UNATI) ao longo da vida (tempo que dedicam ao hábito de ver TV, programas e gêneros preferidos, etc.). Mediante este cruzamento de dados, pretende-se traçar um perfil mais detalhado destes idosos e verificar, na medida do possível, como se dá a relação de influência entre a mídia televisiva e o indivíduo, em particular os idosos que integram a UNATI/SE.
Introdução
Ao longo do século XX, a atenção dos cientistas sociais e do comportamento tem privilegiado o estudo dos padrões de uso da TV e de seus efeitos sobre a conduta de crianças e jovens (Oskamp, 1989). Todavia, um conjunto de fatores vem fomentando a produção de pesquisas cada vez mais focadas nos efeitos causados pela mídia televisiva nos idosos.
O aumento no contingente de idosos em vários países do mundo – no Brasil, mais intensamente nas últimas quatro décadas – tem ampliado o interesse de várias esferas sociais sobre o tema, até mesmo por uma questão de adaptação à nova realidade demográfica. A velocidade com que esse processo tem avançado é alta, deixando o Estado e a sociedade em estado de alerta, pois ainda não se encontram integralmente preparados para tratar de uma realidade social composta por um número cada vez maior de idosos.
Associada ao fato de que os idosos compõem o segmento demográfico que mais vê TV, tal conjuntura, quando correlacionada a fatores socioeconômicos (escolaridade, renda bruta, idade dos indivíduos etc.) e aos hábitos desenvolvidos por eles (tempo de exposição à TV, programas e gêneros preferidos etc.), permitirá que hipóteses mais densas sejam formuladas acerca da influência deste meio, presente em 90,3% dos lares brasileiros (IBGE, 2004).
O estudo em questão objetiva fornecer alguns subsídios para uma melhor análise das alterações nos hábitos de consumo que se processam no âmbito da Melhor Idade a partir do tempo de exposição à TV. Para tanto, serão analisadas variáveis diversas que, na medida do possível, permitirão que um perfil mais bem definido dos idosos da UNATI/SE seja traçado, verificando, ainda, se a influência televisiva a que estão expostos se processa de maneira particular, em virtude da idade em que se encontram.
O envelhecimento populacional
O termo “envelhecimento da populacional” designa um processo que, cada vez mais, tem levado vários paises do mundo a buscar maneiras de se adaptar a esta nova realidade demográfica e suas implicações, sejam estes ricos, pobres, desenvolvidos ou emergentes. Tal fenômeno chamou a atenção de cientistas ligados às áreas sociais (Nussbaum et al., 1997) e humanas que, redirecionando seus estudos – até então voltados prioritariamente às alterações que ocorriam nas parcelas infantil e juvenil da população – passaram a encará-lo como objeto de estudo bastante promissor. Da-se aí uma série de alterações na visão orgânica que se tinha do envelhecimento, passado agora a ser contextualizado a partir de seus aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais.
Devido à redução das taxas de fecundidade e mortalidade (IBGE, 2003), intensificadas nas últimas décadas, a parcela de idosos do país vem crescendo significativamente – notoriamente a partir da década de 1960. Segundo estimativas elaboradas pela Organização Mundial de Saúde e Pelo Ministério da Saúde, o Brasil, cuja população vive em média 71 anos e oito meses (IBGE, 2004), terá em 2025 cerca de 30 milhões de idosos[3] (15% da população), um crescimento aproximado de 188%.
Em 1997, o então deputado Paulo Paim (PT/RS) apresentou o Projeto de Lei à Câmara que, após anos de ‘engavetamento’, se transformou na Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, sendo apresentado à nação sob o nome de ‘Estatuto do Idoso’. Segundo o deputado, era preciso que os idosos tivessem a seu dispor uma Lei que os amparasse e salvaguardasse seus direitos de forma criteriosa, levando-se em conta suas limitações e necessidades especiais, muitas delas em decorrência do peso da idade em que se encontram.
O respectivo estatuto abrange diversos aspectos da vida dos idosos, possuindo, inclusive, dispositivos que tratam de questões bem pontuais, como dispõe o art. 24 do Capítulo V – DA EDUCAÇÃO, CULTURA, ESPORTE E LAZER – que reza que “os meios de comunicação manterão espaços ou horários especiais voltados para os idosos, com finalidade informativa, educativa, artística e cultural, e ao público sobre o processo de envelhecimento” (Estatuto do Idoso, 2003, p15).
A disposição da TV no mundo
Na Europa e América do Norte, pesquisas de mercado desde o fim da década de 1970 já vinham ampliando a faixa etária do universo pesquisado, alterando as amostras compostas por indivíduos com “40 anos ou mais”, por outra significantemente mais velha, com indivíduos com “65 anos ou mais”. Nesta mesma época, ao contrário do que aconteceu no Brasil, os idosos desses países passaram a ser encarados pela mídia televisiva e pelo mercado como um segmento importante do ponto de vista do consumo, capaz de impulsionar importantes setores da economia (de entretenimento, de telefonia móvel, de informática etc.).
Somente na década de 80 é que essa situação começa a ganhar novos contornos, com nossos idosos sendo encarados de um modo mais interessante pela TV que, a par do poder de compra desse segmento – quase 1 bilhão de reais a mais do que a parcela jovem da população dispõe por mês – passou a retratá-lo mais respeitosamente. No momento em que a TV percebeu que podia lucrar mais com uma simples mudança de postura, passou a produzir imagens mais interessantes da velhice e do envelhecimento, explorando-as como nunca nas novelas e programas humorísticos (DEBERT, 1999).
Se avaliada de maneira sociocultural, a TV pode ser considerada como capaz de fomentar significativamente outras instituições, como a da cultura, a da informação e a do entretenimento. A TV se tornou um meio de grande importância para a sociedade, agindo muitas vezes como ‘start’ de modismos e novos comportamentos, incidindo sobre emoções, processos de aprendizagem e de aquisição de conhecimento, capaz, inclusive, de influenciar a visão que o idoso tem de si e do meio no qual está inserido, independentemente de religião, cultura e características sociais. Pode-se dizer que “a TV é junto com a família, a escola e a igreja é uma das principais fontes culturais de socialização” (apud Kubey e Csikszentmihalyi, 1990, p. 24).
No Brasil, quarto país do mundo a ter uma emissora de televisão, a primeira transmissão televisiva foi feita em 18 de setembro de 1950, com equipamentos e aparelhos importados dos Estados Unidos pelo jornalista Assis Chateaubriand (Chatô) que, até a data de sua morte, em 1968, foi responsável pela a maior cadeia de comunicações da América Latina na época, os Diários Associados.
A TV em Sergipe
Como aconteceu em vários outros lugares aonde chegou, a televisão foi capaz de influenciar também o cotidiano dos sergipanos que, na década de 1960, ficaram maravilhados com as primeiras imagens advindas deste eletrodoméstico. Através de uma torre instalada no morro do Urubu, zona norte da capital, as primeiras imagens chegaram à ‘Terra dos Cajueiros’.
Cinco emissoras de TV aberta (sediadas na Capital) atuam em Sergipe que, em alguns casos, necessitam de estações retransmissoras para levar seu sinal aos municípios mais distantes: TV Aperipê – canal 2 (afiliada a TV Cultura); Rádio e Televisão de Sergipe S.A – canal 4 (afiliada a Rede Globo); Rede Vida – canal 6; Sistema Atalaia de Comunicação – canal 8 (afiliada a Rede Record); TV Canção Nova – canal 13.
TV Aperipê
“Aperipê” é o nome indígena com o qual foi batizada a primeira emissora de rádio de Sergipe, na época conhecida como Rádio Difusora de Sergipe, ou PRJ–6, fundada a 30 de julho de 1939. No dia 11 de dezembro de 1972, o governador Paulo Barreto de Menezes, através da Lei n° 1.759, criou a Fundação Aperipê de Sergipe. Anos depois, já em 1985, o governo de João Alves Filho – atualmente exercendo mais um mandato como governador do Estado – oficializou o funcionamento da Televisão Educativa de Sergipe, mais conhecida pelo nome de TV Aperipê.
Com caráter essencialmente educativo, a programação da TV Aperipê é composta prioritariamente por programas não comerciais, produzidos em âmbito nacional e local, havendo pouco espaço para programas que destoem daquilo que se produz e é veiculado por ela. A TV Aperipê não possui programas locais especificamente produzidos para o público idoso. Todavia, o responsável pelo Setor de Captação de Recursos da mesma, Fernando André Pinto de Oliveira, ressaltou que a emissora vem cogitando a possibilidade de produzir conteúdos para esse segmento, pois entende que é de competência de uma emissora educativa atender aos anseios de distintas faixas etárias, não apenas àquelas compostas por jovens e adultos.
TV Sergipe S.A.
Inaugurada em 15 de novembro de 1971, a TV Sergipe foi a primeira emissora de televisão do Estado. Naquela época, iniciou suas atividades como afiliada da TV Tupi. Anos depois, em 1982, a emissora assinou contrato com a Rede Globo de Televisão, da qual é afiliada até os dias de hoje.
A programação da emissora é composta por uma mescla de produções locais e nacionais, estas últimas produzidas pela própria Rede Globo e por produtoras independentes que, quando solicitadas, produzem programas que são inseridos em sua grade. A TV Sergipe não possui programas locais voltados à parcela idosa da população e, ao contrário da TV Aperipê, acha desnecessário produzi-los. Quanto ao fato, a assistente comercial da emissora, Sra. Alik Kostak, informou:
Não temos programas específicos para idosos, pois nossa programação é voltada para todos os públicos adulto, jovem e infantil. Devido à variedade de programas e segmentos interativos ou programas talk shows, cada público tem sua opinião definida, podendo um adulto e uma criança, gostarem de um mesmo programa no mesmo horário. Temos certeza que não só agradamos idosos como todas as nossas famílias sergipanas. (disponível em www.emsergipe.com, acesso em 08/07/2006).
Rede Vida de Televisão
Antes de se tornar a maior rede de televisão católica do mundo, a Rede Vida passou por inúmeras dificuldades, começando pela disputa do canal 11 de São José do Rio Preto, em São Paulo, onde onze interessados disputavam à concessão do mesmo. Dentre os concorrentes, o jornalista João Monteiro, de Barretos, representava de longe o segmento mais fraco. Além da fé, contava apenas com a promessa do então presidente José Sarney que, para a felicidade da comunidade católica, cumpriu com o prometido.
No dia 1º de maio de 1995, a Rede Vida foi ao ar, tendo como primeiro anunciante o Banco Bamerindus que, confiante na proposta da emissora, pagou seus anúncios antecipadamente.
A programação, produzida por mais de 100 emissoras católicas e independentes, é composta de programas diversos, voltados às artes, à educação, à religião, à cultura e a assuntos que interessem às famílias católicas, atendendo aos anseios das mais diversas faixas etárias, inclusive a idosa.
TV Atalaia
Em funcionamento desde 1975, a TV Atalaia, parte integrante do Sistema Atalaia de Comunicação, é uma das mais antigas do Estado e, segundo populares, é a segunda mais assistida, ficando atrás apenas da TV Sergipe – essa afirmação não possuiu confirmação científica.
Sua programação é constituída pela retransmissão dos programas produzidos pela Rede Record (novelas, mini-séries, reality-shows, telejornais etc.), dois telejornais locais e um punhado de programas locais, dentre eles “Tolerância Zero”, de gênero policial, e “Fala Consumidor”, voltado à defesa dos direitos do consumidor.
Como a maioria das emissoras pesquisadas, a emissora em questão não possui programas locais direcionados aos anseios e necessidades do idoso que, como cidadão, gostaria de não ser excluído pelas emissoras de TV, tendo à disposição programas e conteúdos voltados para o segmento do qual faz parte.
TV Canção Nova
A TV Canção Nova é uma emissora relativamente nova. Suas atividades foram iniciadas no dia 8 de dezembro de 1989 e, ao contrário do que normalmente ocorre no mercado televisivo (aberto), suas atividades foram expandidas numa velocidade surpreendente.
Atualmente, possui quatro estações geradoras, instaladas respectivamente nas cidades de Cachoeira Paulista (SP), Brasília (DF), Belo Horizonte (MG) e Aracaju (SE), esta última fundada em outubro de 1997, que são retransmitidas por cerca de 500 retransmissoras implantadas em diversos pontos do território nacional. O sinal produzido por essa emissora alcança, via satélite e outros meios, o Norte da África, Europa Ocidental, Uruguai e Paraguai (disponível em http://www.cancaonova.com.br, acesso em 25/08/2006).
Sua programação é destinada a diferentes faixas etárias, inclusive àquela composta pelos idosos, e possuiu gêneros e formatos diversos, ambos direcionados à cultura, à educação, ao lazer, à informação, ao entretenimento de qualidade e, como não poderia deixar de ser, a formação cristã e espiritual. A geradora de Aracaju, que no início emitia seu sinal a partir dos estúdios da antiga TV Jornal, produz matérias jornalísticas e locais sobre eventos culturais, esportivos, religiosos e literários que, de quando em vez, são utilizadas pelas outras geradoras que integram a rede.
Público Alvo
“O primeiro passo para compreender os efeitos da TV é perguntar a quem a usa”. Condry, 1989.
Para que a Televisão possa obter as respostas de que necessita para auxiliar no direcionamento que irá empregar a determinado produto, leia-se também conteúdo, é necessário que o telespectador seja estimulado adequadamente (não há resposta sem estímulo), ou seja, é necessário que este receba mensagens cuja taxa de ‘ruído’ contida na mesma seja a menor possível. Neste sentido, transmitir conteúdos que produzam no telespectador reações pré-estabelecidas pelo meio (capazes de constituir um padrão que identifique da melhor maneira que tipo de indivíduo compõe seu público alvo) constitui umas das metas mais perseguidas pelos Meios de Comunicação de Massa (MCM), não somente pela TV.
Para Hummert (1992), avaliar conjuntamente o aumento da exposição à televisão e possíveis alterações nos hábitos de consumo dos idosos permite avaliar como estes são atingidos pelas mensagens a que são expostos e identificar mais precisamente quais os programas mais consumidos por tal faixa etária.
Outra questão interessante repousa sobre o fato de que cada faixa etária faz um consumo distinto de horas diárias da televisão, procurando o indivíduo que esteja nesta ou naquela faixa conteúdos que estejam de acordo com o período de vida em que se encontra. (apud Seiter et al., 1991).
Tempo de exposição
Desde a chegada da televisão no Brasil, nos idos de 1950, nunca se assistiu tanta televisão. No período de um ano, de setembro 2004 a setembro de 2005, a Rede Globo aumentou sua audiência de 19,9 para 22,7 pontos. Neste mesmo período, a Record foi de 3,9 para 4,8 pontos.
Tomando como ponto de partida o incremento da audiência da televisão, os hábitos de consumo dos idosos, amplamente suscetíveis às influências produzidas pelo meio externo, podem ser analisados a partir do tempo que este segmento da população dedica ao hábito cada vez mais comum de ver TV. Some-se a isso o fato dos idosos constituírem o segmento da população que mais assiste TV:
Durante as três décadas passadas, ver TV tem sido consistentemente apontado como a atividade que mais consome tempo na velhice [...] o consenso geral indica que a velhice é o período da vida em que a TV é usada com maior intensidade. O pico de uso da TV é atingido aos 70 anos e depois tende a decrescer, sendo, no entanto, superior ao tempo de uso anterior em outras fases da vida (Young, 1979, p. 123).
Metodologia
A análise da temática influência da mídia televisiva nos hábitos de consumo da terceira idade é resultado da observação de um conjunto de dados obtidos junto a uma mostra composta por alunos da UNATI/UFS. A pesquisa (aplicada entre os dias 1º e 15 de abril), orientada por temas e concepções teóricas, compreende um universo de 22 pessoas numa proporção equivalente de 11 homens e 11 mulheres idosas devidamente matriculadas na UNATI/UFS. Foi utilizado um questionário contendo perguntas de múltipla escolha, especificamente criado para o público escolhido, devendo o pesquisado responder a todas as questões.
Através dele, foi possível coletar dados que, depois de devidamente analisados, permitiram desenvolver reflexões mais pontuais acerca da relação entre o idoso e a TV. Nesse sentido, foi levado em consideração o pressuposto de que o aumento do tempo de exposição a tal mídia pode incidir, de certa maneira, sobre o modo de agir destes, podendo levar a alteração dos hábitos de consumo.
Tabela I: Identificação quanto ao grau de escolaridade
Apesar de o ensino médio constituir um dos pré-requisitos para o ingresso na UNATI, à minoria dos alunos tem somente esta escolaridade (9,08%), sendo que a incidência de alunos com 2º grau também é baixa, apenas 13,62%. Neste grupo, mesmo que o percentual de idosos com nível superior seja predominantemente elevado (72,64%), a procura pela UNATI tem crescido ano após ano, o que demonstra forte interesse dos idosos pela obtenção de novos conhecimentos, de uma nova postura perante a sociedade e uma maior familiarização com as novidades apresentadas pelo mercado, direcionadas às mais diversas áreas de interesse.
Tabela II: Segmentação quanto à renda bruta individual mensal
Quanto à renda bruta dos pesquisados, a amostragem confirma o fato de que os idosos possuem um poder aquisitivo significativo, capaz de movimentar determinados setores do mercado. Além disso, esses recursos tendem a possuir fonte estável (aposentadorias, pensões, etc.), ao contrário do que acontece com a parcela mais jovem da população, cuja renda comumente sofre oscilações.
Utilizando como base o percentual do salário mínimo, atualmente cotado a 350 reais, foi identificado que 31,78% dos alunos possuem renda entre 4 e 5 salários; 22,7% mais de 5 salários e 18,16% entre 3 e 4 salários. Os 27,36% restantes ganham entre 1 e 4 salários. Pelo que foi observado, a renda dos alunos da UNATI/UFS é relativamente alta, podendo esta proporcionar um consumo mais intenso de produtos e conteúdos.
Tabela III: Identificação quanto ao gênero do programa
Mediante apresentação da lista acima, 31,78% qualificaram como agradável o fato de a população ter à disposição bons noticiários (notícias) – o Jornal Nacional, da Rede Globo, foi citado como a fonte de informação predileta. Ainda, 22,7% optaram por novelas (entretenimento), 18,16% por esportes (lazer) e 9,08% por programas de entrevistas (informação). 18,16% dos idosos restantes responderam que preferem os gêneros religioso e policial e humorístico e musical.
Mais uma vez a busca por informação e novos conteúdos encabeçou a lista de gêneros preferida pelos idosos da UNATI/UFS, o que corrobora com a idéia de que, além de ampla bagagem cultural, estes possuem ‘gás’ para continuarem ativos e em constante transformação, adaptando-se cada vez melhor ao meio em que vivem.
Tabela V: Identificação quanto ao hábito de ver TV
Grande parte dos idosos pesquisados afirmou ver TV com razoável freqüência (63,36%). Porém, uma questão significativa repousa sobre o hábito daqueles que declaram assistir bastante TV (22,7%): apesar dos mesmos possuírem plena consciência de que o tempo que permanecem frente à TV é prejudicialmente alto, passando este por aumentos graduais, com o passar dos anos, não se manifestou dentre estes a intenção de dedicar menos tempo à ‘telinha’. Com relação àqueles idosos cujo hábito não é tão latente (13,62%), supõe-se que haja outras atividades que requeiram seu tempo e atenção, não lhes sendo facultado empregar mais do tempo hábil a esta atividade tão rotineira.
Tabela VI: Identificação quanto ao número de horas de exposição à TV
Estudos realizados na sociedade norte-americana (entre 1960 e 1980) (ACOSTA-ORJUELA, G. M. 2001) apontam o envelhecimento populacional como um dos primordiais responsáveis pelo aumento do consumo da TV. Apropriando-se da idéia de Comstock (1989), é possível afirmar que o número de horas que o indivíduo assiste à TV possuiu correlação direta com sua idade.
Tabela VII: Identificação quanto à influência de persuasão da TV
Provavelmente, este item é o que mais bem retrata a problemática que motivou a elaboração deste estudo: a influência da mídia televisiva sobre os hábitos de consumo da terceira idade. Para a análise da tabela, foram utilizados dados oriundos de tabelas dispostas acima, principalmente àquelas que tratam da fonte de renda do idoso, seu grau de escolaridade e o tempo a que fica exposto aos conteúdos televisivos.
Todos os pesquisados informaram que em algum momento da vida adquiriram algum produto e/ou serviço desnecessário ou indevido. Mas o que chama a atenção é o fato de que, mesmo com toda experiência adquirida ao longo dos anos, a “arte da compra” continua sendo um desafio para o idoso que, devido ao alto consumo que faz da TV, tornasse ainda mais suscetível aos apelos do mercado. É importante perceber que a variedade de produtos listados acima é grande, o que demonstra que não há apenas um segmento do mercado estabelecendo algum tipo de relacionamento com o idoso.
O maior índice de compras desnecessárias ficou por conta do número de aparelhos de telefone celular (27,24%). Empatados em terceiro lugar com 9,08% de freqüência estão: roupas, calçados e conjunto de facas. O depoimento dado pela Sra. A.S.B., de 65 anos de idade, permitiu que entendêssemos um pouco melhor a relação de influência entre o idoso e a TV.
Até hoje eu me arrependo... Eu estava em casa, sossegada, assistindo a um programa da tarde que eu gostava. Nem sei mais qual era... Eita, memória! Aí me aparece aquela propaganda falando de umas facas maravilhosas, sabe? E eu nem estava tão precisada assim de um jogo de facas... Mas depois que eu vi o que elas faziam... cortavam prego e nunca perdiam o fio, dizia a propaganda. Liguei e comprei. Vinha faca de todo tipo: faca de peixe, faca de frango, faca para descascar legumes. Me arrependo (sic) tanto de ter comprado aquelas facas. Na época, elas nem eram tão baratas assim. Eu tenho até hoje, mas não as uso faz mais de ano. Elas ainda são amoladas. Mas servem mesmo é pra cortar os dedos da gente. (risos). Toda vez que a gente cortava alguma coisa, a faca puxava de lado, nunca cortava nada direito.
Conclusões
O que se pode constatar, ao analisar os componentes da amostra é que eles apresentavam características semelhantes quanto à relação mantida com a TV: altos índices de consumo diário, principalmente nos horários entre 18h e 24h, que favorecem o consumo de programas de informação (telejornais) e de entretenimento (novelas); postura crítica e alto grau de consciência acerca das falhas existentes na “grade” das emissoras, que não privilegia a população idosa, e sua suscetividade às influências exercidas pela mídia televisiva, cujas ações são orientadas muitas vezes a partir dos mandos e desmandos do mercado.
Os dados obtidos neste estudo sustentam a idéia de que há uma relação estreita entre a quantidade de tempo que o idoso dedica à TV e os horários do dia em que essa atividade é mais intensa, as escolhas da programação, o entendimento acerca do nível de qualidade da televisão, a relação mantida com o meio (estímulo/ resposta) e a incidência e modo com que o retrato dos idosos é mostrado na TV, permitindo que se instaure uma relação de reconhecimento.
No estudo realizado, a análise do tempo de uso da TV associada ao cruzamento de dados socioeconômicos (escolaridade, renda bruta, idade dos indivíduos, etc.) permitiu que reflexões mais aprofundadas acerca dos hábitos de consumo dos idosos fossem elaboradas. Na oportunidade, chegou-se a conclusão de que, resguardadas as devidas proporções, a idade (não necessariamente a cronológica) é um fator importante quando se pretende analisar criteriosamente questões relacionadas ao alto consumo da mídia televisiva e a influência exercida por ela sobre os hábitos de consumo da terceira idade.
Ao contrário do que se supunha anteriormente, esta pesquisa revelou que o grau de escolaridade e a bagagem cultural do indivíduo são sistemas de defesa nem sempre eficientes quanto se trata das influências produzidas pela TV. Quando exposto a anúncios comerciais de baixa qualidade, mas com um grau de comicidade relativamente alto, o idoso se mostra mais suscetível aos estímulos recebidos, chegando a interagir positivamente com aquilo ncia a ausrasdos, ra mais tivamente rodia esperar.o mostrousse mentos cde comicidade, que, na ausência do elemento cômico, provavelmente não aconteceria.
Este estudo procurou aproximar-se da maneira e dos motivos que levam os idosos a serem influenciados pela mídia televisiva, munido de um referencial teórico que encara o idoso como ser uno, munido de necessidade e desejos particulares, mas que é passível de sofrer influências advindas do ambiente social no qual está inserido. Esse tipo de abordagem se mostrou adequada para analisar possíveis alterações nos hábitos de consumo do idoso, cuja formação social se dá de forma tão heterogênea.
Acredita-se que a pesquisa acerca da influência da TV pode servir como base para a construção de modelos teóricos que promovam um melhor entendimento dessa relação entre o idoso e a TV.
Durante a abordagem, o fato que chamou atenção foi o alto grau de esclarecimento dos idosos quanto à insensibilidade e a falta de interesse das emissoras para com às suas necessidades mais latentes, independentemente do poder aquisitivo destes outorgar, hipoteticamente falando, um lugar de destaque no hall de preferidos pelo mercado. A questão é que as emissoras de TV têm histórica preferência pelo público jovem e isso é percebido a duros golpes pela população idosa.
Diante do “desinteresse” parcial da TV comercial aberta para com essa fatia da audiência, recentemente, até mesmo altos executivos de grandes monopólios de TV têm se manifestado sobre o tema. Da ótica deles, a indústria da TV, encapsulada numa perspectiva míope, continua orientada exclusivamente aos adultos-jovens, mesmo diante da evidência da erosão das audiências jovens e do crescimento do número de pessoas acima de 50 anos, que são o segmento da audiência que gasta mais tempo vendo TV (apud Grossman, 1998).
Em linhas gerais, este trabalho constitui uma humilde tentativa de produzir conhecimento, de produzir material teórico que, posteriormente, venha passar por um processo de melhoria e refinamento, mediante questionamentos, acréscimos e correções quando comparado a trabalhos de pesquisas futuros. Convém, entretanto, que pesquisas sobre o tema continuem a ser produzidas, promovendo um maior aprofundamento acerca do tema, a fim de alterar a atual conjuntura. A abordagem adotada pelas pesquisas tem de ser objetiva e pragmática, para que os idosos tenham seu valor devidamente reconhecido e possam se reconhecer nas imagens que a TV veicula como sendo as deles.
Notas
Criada em 1973 pelo francês Pierre Vellas, em Toulouse, na França, a Universidade Aberta à Terceira Idade foi concebida com o objetivo de resgatar os idosos do isolamento, propiciando-lhes a possibilidade de alterar sua imagem perante aos outros segmentos da sociedade a partir de melhorias das condições de vida e saúde. NERI, AL Palavras-chave em Gerontologia, define que “idosos são populações ou indivíduos que podem assim ser categorizados em termos da duração do seu ciclo de vida” (2001, p. 69).
Bibliografia
Acosta-Orjuela, Guillermo Maurício. Como e Porque idosos brasileiros usam a televisão: um estudo dos usos e gratificações associados ao meio, UNICAMP, São Paulo, 2001. CONDRY, J. The Psychology of Television. New Jersey: Erlbaum, 1989. DEBERT, G. G. - A Reinvenção da Velhice, EDUSP, São Paulo, 1999. Diagnóstico Governamental de Cadeia Produtiva do Áudio Visual, Brasília, 2004. Estatuto do Idoso: Lei n. 10.741, de 2003, que dispõe sobre o Estatuto do Idoso. – Brasília: Senado Federal, Secretaria Especial de Editoração e Publicações: Câmara dos Deputados, Coordenação de Publicações, 2003. 42 p. – (Série fonts de referência. Legislação; n. 53). GROSSMAN, L. “Aging Viewers: the best is yet to come”. Journalism Review. Jan-Feb, vol. 36, n.5, p. 68, 1998. HUMMERT, M., NISSBAUM, J. e WIESMAN, J. Communication and the elderly. Cognition, language and relationships. Communication Research, vol. 19, n. 4, August, p. 413-422, 1992. IBGE (2003), CD-Rom IBGE, Rio de Janeiro. IBGE (2004), CD-Rom IBGE, Rio de Janeiro. NERI, A. Palavras-chave em Gerontologia. Campinas, SP: Alínea, 2001. 136 p. NUSSBAUM, J.; HUMMERT, M.; WILLIAMS, A. e HAWOOD, J. Communication and older adults. Communication Yearbook, 1997. OSKAMP, S. (ed.). Television as social issue: Applied Social Psychology Annual. Newbury Park:Sage, 1989. KUBEY, R. e CSIKSZENTMIHALYI, I. Television and the quality of life: how viewing shapes everyday experience. New Jersey: Erlbaum, 1990. SEITER, E.; BORCHES, H.; KREUTZNER, G. e WART, E. (eds.). Remote control: television audiences and cultural power. London: Routledge, 1991. YOUNG, T. Use of the media by older adults. American Behavioral Scientist, vol. 23, n.1, Oct, p. 119-136, 1979.
Endereços Eletrônicos Em Sergipe: http://www.emsergipe.com/, acesso em 08/07/2006 Canção Nova: http://www.cancaonova.com.br/, acesso em 25/08/2006
*Guilherme Borba Gouy - guilhermegouy@yahoo.com.br. É graduado em Comunicação Social (Radialismo e Televisão) pela Universidade Federal de Sergipe – UFS. Integrante (como estudante) do grupo de pesquisa NUCA - Núcleo de Comunicação e Arte – UFS. Antigo funcionário (estagiário) do Núcleo de Multimeios da Prefeitura Municipal de Aracaju – PMA. ___________________________________
Fonte: Revista Educação Patrimonial. Disponível em 25/02/2007. http://www.educacaopatrimonial.com.br/educacaopatrimonial/terceiraidade.htm |
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