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Atividades artísticas e viagens estão entre alternativas buscadas por quem já passou dos 60 anos para escapar da depressão e ter uma velhice feliz
Fellipe Fernandes
Eles são pais, avós e alguns já têm idade para serem bisavós. Por mais que isso possa trazer o peso da responsabilidade, as pessoas que entram na terceira idade, quando passam dos 60 anos, se recusam, cada vez mais, a assumir o estereótipo de velhos indefesos e desamparados. Não. Os tempos são outros para pessoas que estão na maturidade. Muitos fogem do abandono, da depressão, dos problemas de saúde e do tédio em grupos de dança, viagens, novos relacionamentos e em novas amizades.
A última pesquisa sobre idosos feita pelo Insituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2002, mostra que eles formam um contingente de quase 15 milhões de pessoas com 60 anos ou mais de idade, ou seja, 8,6% da população do País. A maior parte é de mulheres e, entre os dois sexos, mais de 60% ainda são responsáveis pelo seu domicílio e moram no ambiente das grandes cidades.
De acordo com trabalho realizado pela Universidade de Sydney, na Austrália, sobre a condição dos idosos no Brasil, é justamente pelo fato de estarem em um ambiente de constante transformação e modernização que os idosos tupiniquins passam a sofrer principalmente de depressão. O estudo ainda apontou que a doença também é decorrente de uma situação de perdas continuadas: diminuição do suporte sociofamiliar, a perda do status ocupacional e econômico e declínio físico, que influem diretamente na saúde na melhor idade.
A diferença, segundo a pesquisa, é que os que conseguem driblar os sintomas da depressão procuraram alguma forma de passar o tempo, já que, nesta mesma análise, se descobriu que os idosos brasileiros mal sabem que padecem de depressão e, em conseqüência, não têm tratamento. A solução então é buscar alternativas para não deixar a solidão se abater sobre a vida, que deve ser vivida intensamente até o último dia.
Dança, opá! – É o que pensa o casal Jacinto Pereira, 76, e Nair Gonzaga, 70, casados há 52 anos e pais de três filhos. “Cada dia que passa é uma felicidade a mais pra nós”, concordam. E, segundo eles, tem sido assim desde o dia em que o pai de dona Nair ofereceu a mão da filha àquele moço que havia se encantado com a beleza da garota. “Depois disso, demoramos só três anos para casar”, lembra dona Nair, morrendo de rir.
No entanto, a vida a dois não foi sempre tão fácil, principalmente depois que seu Jacinto foi acometido de uma depressão fortíssima, depois que perdeu um irmão muito querido. “Foi um período muito complicado, porque eu ficava o tempo todo na cama, tinha de tomar remédio. Mas, graças a Deus, achamos uma solução”, conta ele. Do que seu Jacinto está falando?
“A Nair me chamou para freqüentar a Associação de Idosos, eu cedi, e fui”, lembra. A intenção de dona Nair era distrair o marido, fazê-lo conviver com outras pessoas. “Não faltávamos um dia, até que certa vez apareceu um pessoal dançando músicas portuguesas, o representante do grupo convidou a gente e nós viemos fazer parte da turma”, diz Nair.
O Grupo de Dança e Cantares Portugueses, liderado por Eurico Moreira, composto por 25 pessoas, é o único representante do folclore português no Centro-Oeste. Ensaia duas vezes por semana, se apresenta em diversas cidades dentro e fora do Estado e serve de ponto de encontro para pessoas com mais de 50 anos. “Desde que viemos para este grupo, minha vida mudou completamente. Parei de tomar os remédios e me sinto mais contente”, afirma seu Jacinto. “Além de termos muitos amigos aqui, nos sentimos em família. Essa é a diferença.”
Solidariedade
Sentimento familiar é também o que sente dona Maria Carneiro, de 70 anos, presidente da Associação de Idosos Sempre Viva. “Eu sei que têm muitas pessoas que precisam de atenção, de companhia, de se divertir; é por isso que estou aqui com elas”, acredita. “É até mesmo um momento de satisfação para mim, já que temos várias atividades diferentes em nossos encontros.”
Enfermeira aposentada, dona Maria jamais se sentiu velha. “Sou uma pessoa vivida, mas não velha. Idade, quem tem é o meu corpo. Minha cabeça é jovem”, orgulha-se. Este espírito de juventude é o que mantém dona Maria na ativa, mesmo quando os filhos cobram um pouco mais de tranqüilidade. “Eles me dizem que vou me cansar, mas esquecem que é assim que eu me descanso.”
Cansaço, aliás, é uma palavra que dona Maria aboliu do dicionário já há algum tempo. Ela fez mais uma faculdade, Assistência Social, aos 55 anos, “para continuar aprendendo sempre”, mesmo quando o professor lhe perguntou as razões para que ela estivesse ali, na sala de aula, àquela idade. “Eu respondi que era mais um certificado para minha coleção de diplomas”, conta, rindo. Sente-se depressiva? “Só se eu ficar parada.”
Esta é a verdadeira razão para dona Maria sair e se divertir. “Adoro dançar forró. Quer me animar, é só me chamar para dançar.” E foi justamente num desses forrós que ela conheceu o namorado, com quem está há seis anos. Sendo viúva três vezes, será que dona Maria pensa em se casar novamente? “Não! (risos) juntar os trapos não vai dar certo, porque vai começar a pegar no meu pé.”
Dona Mariazinha Campos, 82, também não quis saber de outro homem em sua vida, depois de 40 anos de viuvez. “Meu marido morreu jovem, vítima de um enfarte, e, depois disso, surgiram alguns pretendentes, mas eu sempre dispensei”, conta. Apesar de se manter fiel ao marido até hoje, ela acredita que foi somente depois da morte dele que pôde dar alguns passos por si mesma. “Ele era muito ciumento. Quando íamos à praia, eu nem podia usar maiô”, recorda-se.
Mesmo com a tristeza da morte do marido, dona Mariazinha não desistiu de viver e, ao lado das três filhas, que sempre deram suporte à mãe, conciliou o papel de avó zelosa com o de mulher viajada que, muito além de apenas visitar os lugares, quer sempre aprender as culturas e as várias coisas novas que surgem com o tempo. “Não gosto de ficar parada, porque aí não dá para acompanhar os jovens, não se consegue conversar com eles.”
Sempre focada neste objetivo, dona Mariazinha aprendeu a usar o computador e o MSN Messenger, pelo qual se corresponde com os familiares. “Aprendi com meus netos e, desde então, ficou muito mais fácil me comunicar com eles. Uso até a webcam”, diz. Mas a rede não é o seu ponto principal de diversão. “Faço dança de salão, canto num coral e faço parte de um grupo com quem sempre viajo. Isso, sim, eu gosto de fazer.”
Ela já conheceu quase todos os Estados brasileiros, fez dois cruzeiros e também já foi a países como Argentina, além de ter visitado a Europa por duas vezes. “Adorei Portugal, porque podia entender o que eles conversavam, além de ser um povo muito alegre e receptivo.” De acordo com dona Mariazinha, seja viajar ou qualquer outra coisa, o importante é continuar fazendo o que gosta. ______________________________
Fonte: Diário da Manhã Online. Disponível em 18/02/2007: http://www.dm.com.br/impresso.php?id=174133&edicao=7044&cck=4 |
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