QI e sua
praticidade: inteligência e envelhecimento
José Aparecido da
Silva*
No estudo do
envelhecimento cognitivo é de elevada importância o aumento do número
de pessoas idosas na população, assim como, de sua longevidade. Logo,
questionar quais são os efeitos do envelhecimento sobre a
inteligência humana significa verificar a estabilidade das diferenças
individuais entre as pessoas da infância até o envelhecimento, ou
seja, verificar se desempenhos elevados, ou na média, permanecem
nestes níveis com o passar do tempo ou se alguma mudança, para mais
ou para menos, pode ser verificada. Assim exposto, torna-se
importante analisar especificamente o ordenamento da inteligência
geral (g) em diferentes ocasiões ao longo da vida.
Os dados de um massivo e original estudo realizado na Escócia, e
jamais repetido em qualquer outro país, mostram o quão estável são os
QI(s) obtidos de testes de inteligência aplicados a pessoas quando
estas tinham 11 anos (ano de 1932) e após seus 77 anos de idade (ano
de 1998). Como resultado, muitas pessoas obtiveram escores melhores
na idade de 77 do que quando tinham 11 anos de idade. Entretanto, o
resultado mais importante é que, em geral, as pessoas que fizeram-nos
bem em 1932, também os fizeram em 1998. Similarmente, aqueles que não
apresentaram um bom desempenho, quando crianças, tenderam a
permanecer próximo ao antigo resultado. Tal consistência nos escores
de QI, com a correlação entre os escores obtidos nas duas aplicações
sendo aproximadamente 0,70, mesmo tendo transcorrido 66 anos entre
uma e outra, confirma-se elevada, portanto.
O que estes resultados indicam é que, no geral, há uma grande
quantidade de estabilidade e, aproximadamente, igualitária quantidade
de mudança, nos níveis relativos da habilidade mental da adolescência
até a maturidade. Em alguns a habilidade mental geral melhora,
enquanto que, em outros, declina-se. Tendo sido os coeficientes de
estabilidade similares para homens e mulheres, também a correlação
entre os escores de QI(s), tomados dos testes aplicados em 1932 e
1998 foi 0,48, não significativamente diferente o foi da correlação
obtida entre os escores deste teste com os escores de QI(s) obtidos
em 1998. As fontes destas estabilidades e mudanças, atualmente
pesquisadas, revelam, por exemplo, que algumas pessoas tiveram
escores reduzidos devido ao início da doença de Alzheimer. Os dados
globais mostram, portanto, que a relação entre idade e inteligência
sustenta uma substancial estabilidade no ordenamento dos escores dos
testes de inteligência (QI), assim como uma substancial mudança,
porque a correlação mensurando a estabilidade entre uma aplicação e
outra não é perfeita (1,0).
Estes dados, com implicações para a ciência básica e para a aplicada,
destacam, no campo gerontológico cognitivo, a importância de se
considerar a habilidade mental humana pré-mórbida na investigação do
declínio cognitivo ou demência no envelhecimento. Entretanto, os
resultados validam que, na ausência de processos de doenças, nós
podemos esperar uma ampla estabilidade nas diferenças individuais da
inteligência geral(g) ao longo de toda a vida. As fontes genéticas e
ambientais desta estabilidade devem ser procuradas no campo da
psicologia diferencial. Tal estabilidade, existente em face de
mudanças na contribuição genética para as diferenças em inteligência
ao longo da vida; pode explicar muito mais da variância das
diferenças em inteligência na maturidade do que na infância ou na
adolescência. Certamente, estas diferenças genéticas, atuando no
envelhecimento, tanto ajudam a nos proteger do declínio cognitivo,
quanto o acelera. Por outro lado, fontes ambientais, associadas aos
fatores de risco à saúde que emergem ao longo da vida, revelam que o
QI na idade de 11 anos de idade é capaz de predizer mortalidade e
independência funcional ao longo de mais de 60 anos. Boa saúde,
portanto, depende, para além da inteligência, de inúmeras outras
variáveis. Mas a competência cognitiva é essencial na proteção da
própria saúde e para manter a longevidade. As pessoas menos
inteligentes têm maior dificuldade em estimar os riscos relativos.
Estar preparado para auxiliar a si próprio talvez seja, então, a
lição mais antiga da humanidade.
*Prefeito do Campus da USP de Ribeirão Preto
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Fonte: Jornal A Cidade CIÊNCIA disponível em
http://www.jornalacidade.com.br dia
11/03/2007


