Joaninha: um sorriso de 120 anos

Dona Joana, entre uma gargalhada e outra, conta sua história de 120 anos (Foto: RODRIGO CARVALHO/ESPECIAL PARA O POVO)
Dona Joana, entre uma gargalhada e outra, conta sua história de 120 anos (Foto: Rodrigo Carvalho/Especial para o Povo)

Raquel Chaves - raquel@opovo.com.br


Ela já atravessou os tempos que muitos só conhecem por meio dos livros de história. É memória viva de todo um século que se foi e mais um par de décadas. Este domingo é dia de festa na casa de dona Joaninha, a maranguapense que vem resistindo o avançar dos ponteiros do relógio há exatos 120 anos

Joaninha tinha 82 anos incompletos quando se rendeu aos encantos da marchinha de 1970. Era o carnaval de Maranguape, na Região Metropolitana de Fortaleza. Assim como na capital cearense e no restante do Brasil, dançava-se nos salões como um amor que falava de saudade. Era a "dor que dói demais" pedindo para parar. A Bandeira Branca de Laercio Alves e Max Nunes caiu nas graças de Joaninha, que já não mais rodopiava com os acordes musicais, mas entoava a canção de cor. É assim até hoje. Para ver a "pequena" cantarolar, basta passear pela serrana Maranguape até a rua Maria Efigênia Campos Teles, no Parque Iracema. À altura do número 721 está a aniversariante deste domingo. Se tivesse fôlego, Joana Ribeiro da Silva teria de apagar 120 velinhas.
Era 25 de maio de 1888 quando dona Maria André da Silva pariu Joana. Apenas 12 dias antes o Brasil ensaiava abolir oficialmente a escravatura. O bebê foi se desenhando criança e começou a ver nas bonecas as maiores aliadas. "Eu gostava demais de brincar com aqueles bebezim. Era tudo diferente. As criaturas brincavam junto comigo. Cantava todo mundo junto, fazia roda". O restante da diversão era ocupado com carreiras nos becos, "uns atrás dos outros".

Explicada a infância, dona Joana cai na gargalhada. E assim se segue a conversa animada, entrecortada por sorrisos cheios de barulhos. Na platéia que se junta ao pé da mureta, a vizinhança que está sempre por perto da centenária, e os descendentes que não param de chegar. Vão participando da prosa e refrescando a memória de uma das cidadãs mais conhecidas do lugar.
- Dona Joaninha, de que tanto a senhora ri?

- (Nova gargalhada) Ah, minha fiazinha, eu acho bom demais achar graça!

E é achando graça e sem segredos que dona Joana vai atravessando o tempo. "Como de tudo, mas adoro mesmo é feijão. Nada me faz mal". A família vai confirmando o discurso. "Nunca fui a médico. O que tenho é só ás vezes uma dor de cabeça". As dores nas pernas a incomodam, mas não a impedem de se levantar ou dar alguns passos sem pedir arrego. Nunca um osso foi quebrado ou uma cirurgia foi feita. "Graças a Deus, minha fiazinha". E por que a senhora acha que está conseguindo viver tanto, dona Joana? "É só porque Deus quer. Quando Ele não quiser mais Ele vem e 'puf!', me leva". De novo, o sorriso fica sonoro.

Na casinha de muro alaranjado da rua Maria Efigênia de Campos Teles, outras cinco pessoas ouvem vez ou outra dona Joaninha cantar. Moram com ela uma neta e o esposo e mais três filhos do casal - um deles está em vias de ampliar a família. Enquanto a prosa e a sessão de fotos vai se encerrando, Joaninha apresenta a platéia: "Isso aí tudim é netim. Adoro meus netim. Esse é o Samuel, essa aqui é a Sara, tem a Ariana, o José, o Antônio...", diverte-se um dos sorrisos mais idosos do mundo. Logo ali, em uma Maranguape orgulhosa de sua Joana de 43.800 dias.
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Fonte: O Povo, 24/5/2008. Disponível em:
http://www.opovo.com.br/opovo/fortaleza/img/791546_not_fot.jpg
24/5/2008.