Sexo na velhice pode ser melhor ainda
Há ainda muito tabu em torno da libido e dos limites do corpo na terceira idade
O sexo não envelhece, ele apenas se transforma, e a consciência desse momento pode ser libertadora. "A libido e o desejo não envelhecem e se encontram ligados à fantasia. Sendo assim, não é a idade que impede o prazer sexual", sustenta Ângela Mucida, psicanalista, professora do Centro Universitário Newton Paiva e autora do livro "O Sujeito não Envelhece - Psicanálise e Velhice".
Ainda são muitos os tabus e as fantasias sobre a sexualidade na velhice. "A associação entre prazer, beleza e juventude junto à crença de que as mulheres envelhecem enquanto os homens permanecem "charmosos" são formas de desvalorização também encontradas nas mulheres, que dificultam as expressões da sexualidade na velhice", diz.
"O inesperado do amor e do encontro sexual pode gerar vergonha, culpa e o proibido a partir do imaginário de que a sexualidade pertence à juventude e aos adultos até certa idade", explica Mucida. Para a psicanálise, "a sexualidade não se refere à genitalidade, ao coito, à reprodução e, muito menos, ao desempenho sexual.
Ela constitui-se de um campo complexo de marcas deixadas muito cedo na relação com os outros e que não envelhecem. Essas marcas têm efeitos sobre as escolhas, preferências ou aquilo que não se suporta no campo sexual."
E continua: "A sexualidade na velhice não se diferencia da sexualidade de outro momento da vida, todavia, ela se realiza de maneiras diferentes no decurso da vida, da mesma forma que o desejo. Quanto ao amor, ele sempre "desacomoda" independente da idade, mas a velhice pode ser propícia a um amor menos exigente".
E o tempo deixa marcas indeléveis. "Sim, ninguém escapa das esculturas do tempo no corpo e na imagem. É preciso aprender a amá-las. A atração entre um sexo e outro passa por caminhos os mais enigmáticos.
Idosa vem mudando
A especialista diz que "atração entre um sexo e outro passa por caminhos os mais enigmáticos e a complexidade da sexualidade aumenta com o passar dos anos. Um corpo jovem e perfeito não implica um corpo mais pronto para provocar a atração ou o prazer. Muitos homens necessitam, inclusive, encontrar algumas falhas no corpo da parceira para sentirem-se mais viris", alerta.
Essas mudanças no corpo não se apagam "e impõem muitas vezes novas formas de expressão sexual, o que não implica abdicar-se dos encontros sexuais e do prazer.
Espera-se que na velhice cada um saiba suportar melhor a cota de fracasso sempre presente nos encontros sexuais, mas isso pode não ocorrer", pondera a especialista.
Mudanças
A mulher idosa vem mudando e já abandona estereótipos culturais. "Ela é efeito da produção do saber de nossa época e das mudanças culturais. Mesmo já sendo avós, presenciamos idosas passeando pelas ruas, frequentando universidades, cinemas, teatros, namorando e participando de bailes onde fazem amigos e por vezes encontram parceiros. Não há verdades globais que definam a mulher idosa, pois cada uma envelhece de seu próprio modo e para algumas a idade traz maior liberdade e conhecimento de si com efeitos notáveis sobre a sexualidade", conclui a psicanalista Mucida.
Mitos estigmatizam mulher
Muitos mitos ainda estigmatizam a mulher idosa. Mas o gerontólogo Pedro Paulo Monteiro, com vários livros publicados sobre o assunto, desmistifica o que parece ser a mais autêntica realidade. Para ele, "o estímulo ao desejo sexual desenfreado aumenta em proporção ao lucro, propiciando às mulheres mais velhas dúvida e incerteza quanto ao seu verdadeiro papel como mulher. Elas se tornaram presas fáceis de uma cultura machista que prega que a mulher jovem é desejada e, por isso, mais aceita".
O médico afirma que "todas as mulheres serão sexualizadas até a morte. A mulher mais velha não está doente porque sente prazer. Ela sente prazer porque nela existe pulsação de vida e potência de criação". Segundo ele, a mulher na velhice não tem menos necessidade sexual que os homens. "Isso é um mito criado por uma sociedade machista a fim de manter portas abertas à infidelidade justificada. Não existem diferenças biológicas em relação à sexualidade e, sim, regras sociais e culturais que justifiquem como a mulher pode e deve se comportar".
Pedro Paulo defende que "a sexualidade da mulher não serve apenas para sentir o gozo na relação com um homem, mas principalmente para sentir a força criativa de se reinventar. Independentemente da idade, sentir prazer faz parte da natureza humana", finalizou.
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Fonte: O Tempo. Publicado em 15/03/2009. Acesso em 20/03/2009.
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