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O Último Dançarino de Mao: Um Convite à Liberdade


O filme é a versão para o cinema da autobiografia do bailarino chinês Li Cunxin, que nos faz voar até onde a liberdade já não possa mais alcançar. 24/01/2012 - por por Luciana H. Mussi, da Redação Portal na categoria 'Filmografia'
Prêmio de público na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo há dois anos, “O Último Dançarino de Mao”, dirigido pelo australiano Bruce Beresford (Conduzindo Miss Daisy), conta a história verídica do bailarino chinês Li Cunxin, uma história pessoal atravessada pelas oscilações da Revolução Cultural chinesa.

É a versão para o cinema da autobiografia de Li Cunxin, nascido num vilarejo chinês, e que se tornou uma referência na dança mundial, fazendo carreira nos Estados Unidos e na Austrália, onde hoje vive.

Digam o que quiserem os críticos, mas a bela história de Li Cunxin emociona. Seja pela destemida trajetória de realização pessoal, mas também pelas renúncias e até culpa vivida pelo protagonista diante de conflitos que só ele pode enfrentar e, sozinho, na mais aterradora solidão emocional.

O foco do filme não é político, mas em muitos trechos vemos o retrato de um país dominado pelo poder e a submissão. Na cena em que o pequeno Li Cunxin com sua família pobre do interior da China, fica evidente uma situação política bem marcada – a da Revolução Cultural, comandada pela então esposa de Mao Tsé-tung, Chiang Ching. Ela, com seus característicos óculos redondos, vê um bailado local e logo questiona o líder da comunidade: “E onde está a revolução? Onde estão as armas?” Uma forma bastante clara de dizer que arte deve ter em suas entranhas uma política à serviço da educação do povo para os valores da revolução.

Questões como esta são discutidas em vários diálogos no filme. Uma arte – o balé - “batizada” por deuses como Mikhail Baryshnikov ou Rudolf Nureyev não estaria em choque com uma dança suportada pela guerra e suas armas? E, pior, germinando por todos os lados, conflitos criados pelo homem e para os homens.

Durante o filme, fica claro que o ator, Chi Cao (filho de dois professores de Li Cunxin na Academia de Balé de Pequim), que interpreta o verdadeiro Li Cunxin, mergulha, literalmente, na autobiografia de seu renomado personagem. Aliás, o próprio Li Cunxim aprovou seu intérprete na tela, que o encarna na fase adulta. 

O pequeno Li, interpretado por Wen Bin Huang, vive com os pais camponeses. Até o dia em que sua aldeia é visitada por representantes do governo, recrutando candidatos para treinamento artístico e atlético. O menino é escolhido para estudar dança em Pequim, forçando uma separação da família, juntamente com diversas outras crianças da sua e de outras aldeias. Ainda que emocionalmente divididos, os pais viam aí uma oportunidade de um futuro melhor para os filhos.

Em Pequim, Li se vê obrigado a esquecer a infância em favor de um treinamento intensivo, não raro, doloroso. A ideologia, presente em todas as instâncias da vida do garoto, domina os  temas dos espetáculos de balé, sempre dirigidos para o enaltecimento dos valores da revolução comunista.

A partir de uma visita do presidente Richard Nixon à China, em 1972, começa a ocorrer uma espécie de aproximação cultural, levando a um intercâmbio maior entre os dois países, inclusive de artistas, que mudará a vida de Li Cunxin.

Numa turnê pela China, o diretor do balé de Houston, Ben Stevenson (Bruce Greenwood), impressiona-se pelo talento do bailarino chinês, que é convidado para uma temporada no Texas. Lá, ele descobre uma realidade inteiramente diferente, um verdadeiro choque de culturas.

Uma vez no então considerado país das oportunidades e das tentações, surge a paixão pela bailarina Elizabeth (Amanda Schull) que planta uma pequena semente em Li: a ideia de ficar nos EUA. Aliás, uma decisão que provoca um sério incidente diplomático e acarreta uma sequência de acontecimentos dramáticos.

Piegas, superficial na abordagem dos personagens ou na análise da situação política e cultural da China? Pouco importa. O Último Dançarino de Mao nos faz voar até onde a liberdade já não possa mais alcançar.

Liberdade é para poucos, talvez, apenas para aqueles iluminados e abençoados com o dom da arte. Para Nietzsche o mundo não tem ordem, estrutura, forma e inteligência. Nele as coisas “dançam nos pés do acaso” e somente a arte pode transfigurar a desordem do mundo em beleza e fazer aceitável tudo aquilo que há de problemático e terrível na vida.

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=FTJFDN-acCs

Referências
BARBOSA, N. (2012). Premiado na Mostra de São Paulo, "O Último Dançarino de Mao" se inspira em história real. Disponível em http://cinema.uol.com.br/ultnot/reuters/2011/12/08/premiado-na-mostra-de-sao-paulo-o-ultimo-dancarino-de-mao-se-inspira-em-historia-real.jhtm. Acesso em 21/01/2012.
ZANIN, L. (2012). O Último Dançarino de Mao. Disponível em http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/o-ultimo-dancarino-de-mao/. Acesso em 21/01/2012.

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Atualizado em 22/02/2012 15:04:25