
Prêmio de público na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo há dois anos, “O Último Dançarino de Mao”, dirigido pelo australiano Bruce Beresford (Conduzindo Miss Daisy), conta a história verídica do bailarino chinês Li Cunxin, uma história pessoal atravessada pelas oscilações da Revolução Cultural chinesa.
É a versão para o cinema da autobiografia de Li Cunxin, nascido num vilarejo chinês, e que se tornou uma referência na dança mundial, fazendo carreira nos Estados Unidos e na Austrália, onde hoje vive.
Digam o que quiserem os críticos, mas a bela história de Li Cunxin emociona. Seja pela destemida trajetória de realização pessoal, mas também pelas renúncias e até culpa vivida pelo protagonista diante de conflitos que só ele pode enfrentar e, sozinho, na mais aterradora solidão emocional.
O foco do filme não é político, mas em muitos trechos vemos o retrato de um país dominado pelo poder e a submissão. Na cena em que o pequeno Li Cunxin com sua família pobre do interior da China, fica evidente uma situação política bem marcada – a da Revolução Cultural, comandada pela então esposa de Mao Tsé-tung, Chiang Ching. Ela, com seus característicos óculos redondos, vê um bailado local e logo questiona o líder da comunidade: “E onde está a revolução? Onde estão as armas?” Uma forma bastante clara de dizer que arte deve ter em suas entranhas uma política à serviço da educação do povo para os valores da revolução.
Questões como esta são discutidas em vários diálogos no filme. Uma arte – o balé - “batizada” por deuses como Mikhail Baryshnikov ou Rudolf Nureyev não estaria em choque com uma dança suportada pela guerra e suas armas? E, pior, germinando por todos os lados, conflitos criados pelo homem e para os homens.
Durante o filme, fica claro que o ator, Chi Cao (filho de dois professores de Li Cunxin na Academia de Balé de Pequim), que interpreta o verdadeiro Li Cunxin, mergulha, literalmente, na autobiografia de seu renomado personagem. Aliás, o próprio Li Cunxim aprovou seu intérprete na tela, que o encarna na fase adulta.
O pequeno Li, interpretado por Wen Bin Huang, vive com os pais camponeses. Até o dia em que sua aldeia é visitada por representantes do governo, recrutando candidatos para treinamento artístico e atlético. O menino é escolhido para estudar dança em Pequim, forçando uma separação da família, juntamente com diversas outras crianças da sua e de outras aldeias. Ainda que emocionalmente divididos, os pais viam aí uma oportunidade de um futuro melhor para os filhos.
Em Pequim, Li se vê obrigado a esquecer a infância em favor de um treinamento intensivo, não raro, doloroso. A ideologia, presente em todas as instâncias da vida do garoto, domina os temas dos espetáculos de balé, sempre dirigidos para o enaltecimento dos valores da revolução comunista.
A partir de uma visita do presidente Richard Nixon à China, em 1972, começa a ocorrer uma espécie de aproximação cultural, levando a um intercâmbio maior entre os dois países, inclusive de artistas, que mudará a vida de Li Cunxin.
Numa turnê pela China, o diretor do balé de Houston, Ben Stevenson (Bruce Greenwood), impressiona-se pelo talento do bailarino chinês, que é convidado para uma temporada no Texas. Lá, ele descobre uma realidade inteiramente diferente, um verdadeiro choque de culturas.
Uma vez no então considerado país das oportunidades e das tentações, surge a paixão pela bailarina Elizabeth (Amanda Schull) que planta uma pequena semente em Li: a ideia de ficar nos EUA. Aliás, uma decisão que provoca um sério incidente diplomático e acarreta uma sequência de acontecimentos dramáticos.
Piegas, superficial na abordagem dos personagens ou na análise da situação política e cultural da China? Pouco importa. O Último Dançarino de Mao nos faz voar até onde a liberdade já não possa mais alcançar.
Liberdade é para poucos, talvez, apenas para aqueles iluminados e abençoados com o dom da arte. Para Nietzsche o mundo não tem ordem, estrutura, forma e inteligência. Nele as coisas “dançam nos pés do acaso” e somente a arte pode transfigurar a desordem do mundo em beleza e fazer aceitável tudo aquilo que há de problemático e terrível na vida.
Trailer:
http://www.youtube.com/watch?v=FTJFDN-acCsReferências
BARBOSA, N. (2012). Premiado na Mostra de São Paulo, "O Último Dançarino de Mao" se inspira em história real. Disponível em
http://cinema.uol.com.br/ultnot/reuters/2011/12/08/premiado-na-mostra-de-sao-paulo-o-ultimo-dancarino-de-mao-se-inspira-em-historia-real.jhtm. Acesso em 21/01/2012.
ZANIN, L. (2012). O Último Dançarino de Mao. Disponível em
http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/o-ultimo-dancarino-de-mao/. Acesso em 21/01/2012.