Ricardo Galhardoni


Ângela Maria Machado de Lima (orientadora)

 

 Envelhecimento e gestão de risco:

reflexões sobre experiência em Gerontologia

 

“Um velho saudável não é uma ficção de poeta”
Canguilhem

 

 

Sabemos que modificações ocorridas no perfil demográfico e epidemiológico nos últimos anos têm colocado o envelhecimento, um processo multidimensional e heterogêneo, em destaque na comunidade científica, assim como entre a comunidade em geral, sendo matéria de interesse público, conseqüentemente práticas e ações se desenvolvem buscando dar conta das sofisticadas necessidades dos idosos.

Dentre essas propostas destacamos uma recente iniciativa no campo da educação, a criação da Graduação em Gerontologia, nível bacharelado, na Universidade de São Paulo. O profissional que se pretende formar nesse curso terá como competência: capacidade para atuar junto às demandas assistenciais específicas dos idosos, contribuindo para que o envelhecimento possa ser um processo orientado, bem sucedido, assistido e cuidado. Esses profissionais são capacitados para prever, dimensionar e assistir as demandas específicas dessa população, nos mais diferentes contextos, atuando também no combate aos preconceitos e intervenções inapropriadas das famílias e organizações assistenciais.

Há diversas oportunidades de atuação para os alunos desse curso que oferecem em atividades de extensão dentro da própria universidade possibilitando que o graduando venha a “exercer” a Gerontologia, com embasamento em um conjunto de conhecimentos científicos que abrangem áreas biopsicossocias.

A Universidade Aberta a Terceira Idade (UnATI) é um programa exemplar desse investimento. Neste texto apresentamos reflexões a respeito das atividades realizadas em atividade de oficina denominada “Gestão de Risco no envelhecimento” dirigida para os idosos e que ocorreram nesse cenário, com um enfoque muito peculiar: enfatizando o cotidiano, por eles vivenciados.

Groisman (2002) comenta em seu trabalho o quão difícil é separarmos o que é patológico do que é normal na velhice, pois há entre eles uma linha muito tênue. Desse modo, inúmeras vezes esses conceitos acabam se sobrepondo, um exemplo de evento que migrou de senescente para senil, é o valor da pressão arterial em idoso que outrora fora considerado como normal o valor de 140x90mmHg, hoje sabemos se tratar um valor, em certa medida, prejudicial à saúde de idoso. Vale dizer, não existe um padrão único de envelhecimento, guiado por comportamentos fixos e por estilos de vida engajados. Em outras palavras os padrões são construídos com a percepção dos próprios idosos, protagonistas das intervenções e dotados de julgamentos, crenças e diferentes visões do que são bem-estar e qualidade de vida em interação com outros idosos e o meio ao qual estão inseridos (Neri, 1993; Paschoal, 2005).

Nossa intervenção foi realizada levando em conta todos os aspectos citados anteriormente, procurando não fornecer fórmulas prontas para pensar, mas buscar minimizar os riscos que podem ser amplificados ao longo do tempo, a partir das situações cotidianas dos idosos presentes, visando que eles identificassem os possíveis pontos que lhe poderia trazer prejuízo e em grupos buscassem soluções concretas e de fácil execução.

Tomando como pressuposto o interesse individual desses idosos reunidos em grupo abordamos alguns temas em saúde procurando discutir estratégias para gerir riscos tais como: educação e alimentação, prevenção de quedas, doenças crônicas mais prevalentes de forma a contemplar todas as expectativas emergentes nos encontros grupais.

Paschoal (2002) atenta em seu trabalho para o fato das pessoas terem o desejo de viver mais. Além desse desejo, há também a incerteza se será possível chegar à última etapa de vida com autonomia e sem incapacidades. Caso isso possa ser alcançado, os sujeitos julgar-se-iam com boa qualidade de vida e a sociedade assim os veria. Tal fato é percebido através das políticas públicas que são empreendidas atualmente, que cultivam a cultura do envelhecimento ativo e a diminuição das perdas a todo custo. Vejamos exemplo na cidade de São Paulo.

                          (Projeto SABE, 2003)

 

Observando o quadro acima percebemos que no município de São Paulo, os idosos mais novos (faixa etária de 60-74anos), homens têm menos comprometimento que as mulheres, entretanto se tratando de idosos mais velhos (75 anos ou +), eles têm maiores problemas que os idosos mais novos independente do sexo.

Tais dados talvez fossem diferentes se esses idosos tivessem tido a oportunidade de modificar hábitos ao longo do curso de vida, e tais modificações não carecem de ser radicais e, sim, se acontecessem paulatinamente mediante conscientização e fornecimento de informações que muitas vezes estão implícitas em estilos de vida.

A dinâmica utilizada na oficina de gestão de risco se embasou nos pressupostos acima e se deu do seguinte modo: o tema alimentação foi abordado primeiramente levando os idosos a pensar sobre sua própria alimentação diária e como isso era importante para a manutenção o funcionamento do organismo, passado esse primeiro momento explicávamos sobre as modificações que a pirâmide alimentar tem sofrido, e o que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde, tem preconizado como segurança alimentar e como isso beneficia a qualidade de vida do indivíduo no dia a dia; como utilizar alimentos regionais de forma mais otimizada. Todo esse esforço para que os idosos percebessem que podem cuidar de sua alimentação de forma simples com os alimentos que estão disponíveis, sem que seja necessário incorporar alimentos que estejam fora de sua realidade ou condição financeira. Perguntamos aos idosos presentes de que modo preparavam os alimentos e o que aproveitavam dos mesmos, visando troca de conhecimentos do dia a dia entre os participantes, e promover a percepção de como poderia ser agradável modificar certos hábitos.

A experiência nos faz refletir que a estratégia da gestão de risco em Gerontologia consiste basicamente em propor que o idoso seja agente e sujeito da ação, ou seja, mais que subsidiar soluções que tentem minimizar os problemas ao longo da última etapa de vida, ao buscar soluções simples para seus problemas cotidianos os relacionando ao processo de envelhecimento.

A vista do exposto, acreditamos que com o aumento da longevidade os idosos têm a chance de desenvolver estratégias que ajudem a deslocar para os últimos anos de vida os problemas acarretados pelas vulnerabilidades do processo de envelhecimento e pelas co-morbidades e desse modo viver a maior parte do tempo com autonomia e independência, minimizando os problemas que podem vir a ser causados por fatores intrínsecos e extrínsecos a esse processo sócio-vital, influenciando a melhoria da qualidade de sua vida e permitindo que se mantenha participativo ao longo dos anos.

 

Referências

Groisman, Daniel. A velhice, entre o normal e o patológico. Hist. Cienc. Saúde-Manguinhos, Abr 2002, vol.9, nº. 1, p.61-78.
Lebrão, Maria Lúcia. SABE – Saúde, Bem-estar e Envelhecimento – O Projeto Sabe no município de São Paulo: uma abordagem inicial/Maria Lúcia Lebrão, Yeda A. de Oliveira Duarte. – Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2003. 255p. : il.
Néri, Anita Liberalesso Qualidade de Vida no Adulto Maduro: Interpretações Teóricas e Evidências de Pesquisa. In: Qualidade de Vida e Idade Madura. Org: NERI, A L.- Campinas: Papirus,2003 . p 07-55.          
Paschoal, Sérgio Márcio Pacheco. Qualidade de Vida. In: Avaliação Global do Idoso Manual da Liga de Gamia, editor: Wilson Jacob Filho, editor associado: José Renato G. Amaral. São Paulo: Atheneu, 2005. p 59-77.
Paschoal, Sérgio Márcio Pacheco. Qualidade de vida na Velhice. In: Freitas, EV. et al. Tratado de Geriatria e Gerontologia .Rio de Janeiro Guanabara e Koogan, 2002. p 79-84.  

 

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Ricardo Galhardoni
É aluno do 3ºano da graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH).  Presidente e membro fundador da Liga de Gerontologia na EACH. Desenvolve pesquisa de Iniciação Científica a respeitode Qualidade de Vida e autopercepção da saúde com idosos. Tem ainda interesse em temas como envelhecimento bem-sucedido e suas diferentes trajetórias entre idosos brasileiros. E-mail: rgalhardoni@yahoo.com.br

Ângela Maria Machado de Lima
É Graduada em Medicina (Médica Sanitarista), atualmente é professora doutora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH). Tem experiência e investigações na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Gerontologia, pesquisando principalmente os seguintes temas: saúde e envelhecimento; necessidades de saúde; idosos de baixa renda; envelhecimento e auto cuidado. Coordenadora do curso de graduação em Gerontologia da USP, desde 30/08/06. E-mail: sertão@usp.br