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Envelhecimento e trabalho dentro de cooperativas populares Este texto está baseado na realidade de trabalhadores e trabalhadoras com idade igual ou superior a 50 anos em cooperativas populares na cidade de Campinas, SP. Foi realizado um mapeamento socioeconômico desses trabalhadores que permitiu analisar o mundo das cooperativas em termos de trabalho e envelhecimento.
O cooperativismo na região de Campinas é um movimento recente, mas, ao mesmo tempo, extremamente significativo para o crescimento da dignidade humana. O estudo realizado apresentou uma discussão de dados das cooperativas atendidas pela Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP) da Universidade Estadual de Campinas, mais especificamente com um olhar voltado para os participantes na faixa etária supracitada.
De acordo com uma pesquisa recente sobre o tema trabalhador idoso, auferiu-se que a legislação brasileira de previdência social dá aos trabalhadores que contribuíram 35 anos com o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e às trabalhadoras que contribuíram 30 anos o direito à aposentadoria. Além disso, trabalhadores com mais de 65 anos e trabalhadoras com mais de 60 anos também podem se aposentar, desde que tenham contribuído um mínimo necessário com o INSS. Contudo, muitas vezes, os cidadãos não conseguem adquirir esse direito e continuam no mercado de trabalho, pois muitos trabalharam na roça ou em empregos que não lhes dão, atualmente, a comprovação do tempo de trabalho e contribuição (Patrocinio, 2005).
Em muitos contextos, não é necessário atingir 60 anos para ser considerado velho no mercado de trabalho. Peres (2002) afirma que existem várias profissões e carreiras em que as pessoas já são consideradas velhas quando atingem os 40-50 anos; muitas vezes, isso ocorre porque ainda prevalecem em nosso meio representações sociais negativas sobre o envelhecimento.
Realizamos uma comparação entre duas cooperativas bem diferentes: a Tatuapé, do ramo de reciclagem de entulhos e a CooperMimo, de costura, composta apenas por senhoras. O que ficou muito forte foi a questão de não terem outra oportunidade de trabalho devido à idade avançada, por isso, optaram por fazer parte da cooperativa: “Mais na minha idade não tem jeito de arrumar mais. Só serve pra aposentar, aposentou, saio de lá” (Seu Benvindo, 64 anos, Cooperativa Tatuapé).
Muitas vezes, os cooperados e cooperadas até tentaram um emprego no mercado formal, mas tiveram respostas negativas que os levaram a desistir:
Porque, infelizmente, aqui no Brasil, passou de 30 anos é considerada velha e eu tive em vários lugares, que eu tenho conhecimento de muitas coisas que eu já fiz, certo? Ah, é muito bom, levei meu currículo, tal faz isso, faz aquilo, mas a gente precisa de pessoas mais novas, então foi uma ducha de água fria que me deram, daí que eu falei: O que que eu vou fazer? Ninguém me aceita pela idade, eles não vêem a experiência que a pessoa de mais idade tem. (Dona Nena, 54 anos, Cooperativa CooperMimo).
Segundo Peres (2002) a “velhice” aos 40 ou 50 anos verificada no contexto atual do mercado de trabalho é um fato, na medida em que os profissionais que atingem tal faixa de idade sofrem com a estereotipia que caracteriza a velhice. Em uma publicação recente, afirmo que o critério de exclusão no mercado não é, necessariamente, a idade e sim a educação do trabalhador, que precisa satisfazer as exigências das empresas no tocante a habilidades, fluência em algum outro idioma e experiência no cargo. Com isso, os trabalhadores e trabalhadoras mais velhos que não tiveram e não têm acesso à educação ficam excluídos do mercado formal de trabalho (Patrocinio, 2005). Além disso, em entrevistas informais, cooperados mais jovens, que não possuem essas habilidades e capacidades que determinadas empresas solicitam, disseram estar nas cooperativas por falta de oportunidades.
Em relação ao motivo que mantém as pessoas trabalhando nas cooperativas, encontramos um sentimento contraditório. Na Tatuapé, se por um lado tivemos a repulsa ao tipo de trabalho, tivemos também o sentimento de dignidade que o trabalho proporciona, segundo Peres (2002, p. 1): “É pelo trabalho que não só se obtém o próprio sustento, mas também que se mantém a dignidade e que se constrói a própria identidade”. Vários dos entrevistados relataram ser um trabalho árduo, sujo e difícil. Por outro lado, relataram que acabam se acostumando com esse tipo de serviço e que se sentem felizes por ter um trabalho, por serem úteis de alguma forma.
Na CooperMimo, a contradição encontra-se no fato de elas relatarem ter entrado no grupo para ajudarem na renda familiar, mas a retirada delas mal dá para manter a continuidade do trabalho, isso significa que elas têm levado muito pouco para suas casas e o que as mantém no grupo é a esperança que ainda vai dar certo.
A questão da dignidade nessa fase de envelhecimento pode ser explicada pela ótica da produtividade e da valorização do jovem em nossa sociedade, segundo Debert (1997): “O velho, por não se constituir em mão-de-obra apta para o trabalho, é desvalorizado e abandonado pelo Estado e pela sociedade”. Nessa perspectiva, trabalhar nesse momento da vida de uma pessoa pode trazer o sentimento de realização por estar produzindo, mesmo que não tenha renda, como é o caso da CooperMimo: “Eu fico muito orgulhosa em falar: EU TRABALHO!” (Dona Eva, 55 anos).
No tocante ao trabalho propriamente dito, foi uma constante na Tatuapé o relato dos entrevistados de que se encontrassem um emprego registrado deixariam a cooperativa sem pensar duas vezes. Já na Mimo não encontramos esse tipo de situação, elas ainda mantêm uma esperança muito forte de que a cooperativa vai dar certo e que dali elas vão tirar uma renda para ajudar as próprias famílias. Segundo uma das cooperadas, elas precisam tocar a cooperativa para a frente para ganhar dinheiro: “Nós temos que lutar pra ter alguma coisinha nossa... eu queria que fosse pra frente, o meu sonho era ganhar dinheiro, meu Deus, eu queria ganhar, pelo menos um salário, se eu trouxesse pra dentro de casa” (Dona Eva, 55 anos, CooperMimo).
Por fim, sabemos que a exclusão no trabalho não ocorre apenas por causa da idade, de acordo com Neri (2002, p. 13): “O desemprego dos adultos mais velhos e dos idosos é mais devido à falta de oportunidades educacionais e de treinamento em serviço e aos preconceitos do que ao envelhecimento em si mesmo”. E isso foi amplamente relatado por nossos entrevistados e entrevistadas, então, o que seria preciso realizar para que essas pessoas pudessem envelhecer no mundo do trabalho com dignidade? A mesma autora nos traz uma saída:
A superação de falsas crenças é fundamental para a promoção de um tratamento mais conseqüente da questão da velhice. A educação permanente de pessoas de todas as idades é o instrumento mais adequado para essa finalidade. Por meio dela, será mais provável conseguir superar não só os estereótipos sobre o idoso e a velhice, como também as práticas sociais discriminatórias em relação aos que envelhecem no ambiente de trabalho. (NERI, 2002, p. 25).
Referências
DEBERT, Guita G. A invenção da terceira idade e a rearticulação de formas de consumo e demandas políticas. Revista Brasileira de Ciências Sociais. Vol. 12, n. 34, pp. 39-56, jun. 1997. NERI, A. L. (2002). Envelhecer bem no trabalho: Possibilidades individuais, organizacionais e sociais. Terceira Idade, São Paulo, Vol. 13 (n. 24): 7-27. PERES, M. A. C. (2002). Trabalho, idade e exclusão: a cultura organizacional e as imagens sobre o envelhecimento. Dissertação de Mestrado, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. PATROCINIO, Wanda P. Trabalhador Idoso. In: NERI, Anita L. (org.) Palavras-chave em gerontologia. 2ed. Campinas: Alínea.
Pedagoga e Mestre em Gerontologia pela
Universidade Estadual de Campinas. Atuou como monitora e
pesquisadora da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares
da ITCP-Unicamp de 2002 à 2005. Atualmente, trabalha na área
organizacional da ONG Teatro de Tábuas, que desenvolve projetos de
arte e educação em todo território brasileiro. Foi professora da
Faculdade Cenecista da Terceira Idade Faceti/CNEC/Capivari.
Ministra palestras de orientação para um envelhecimento saudável
em empresas e congressos e ministra o curso de educação para o
envelhecimento bem-sucedido em Nazaré Uniluz, universidade
holística. E-mails:
wanda@h2tec.com.br e
wandovisky@hotmail.com |
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