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Ensaios sobre a subjetividade contemporânea
Como se vê o corpo – e como o corpo é visto. Como se quer
vê-lo, e como se quer que seja visto. Do “corpo que nos causa
mil dificuldades” (Sócrates) ao corpo aerodinâmico, do corpo
débil dos hospitais ao corpo veloz dos aeroportos, do corpo
herdado e imposto ao corpo (re)construído da biogenética e
(re)moldado das academias, esta coletânea de dez textos nos dá
uma visão arguta e por vezes inesperada deste “objeto” no qual
vivemos dia após dia, contra o qual nos rebelamos, e que por
vezes se rebela contra nós. Uma abordagem interdisciplinar
entre a história dos costumes, a antropologia social e a
psicologia.
por Maria Rita Kehl
(da orelha do livro)
Há mais de uma década Denise Sant’Anna pensa e escreve sobre o
que ocorre com nossos corpos na modernidade. Corpos de
passagem reúne ensaios escritos durante a década de 90; são
textos autônomos que se encadeiam numa seqüência analítica
de modo a funcionar também como capítulos de um único texto
longo. Um texto em que a autora examina de vários ângulos
diferentes seu objeto, remetendo o leitor sempre à mesma
pergunta: o que vem a ser, afinal, um corpo humano?
O
que é então um corpo: um conjunto de órgãos, reflexos,
sensações? um conjunto de órgãos, reflexos, etc., que se
reconhece em uma imagem mais ou menos estável? um conjunto de
órgãos + a sua imagem + os discursos que o designam e o
valorizam? Ao que se acresce um ritmo, uma velocidade,
acelerações e desacelerações; territórios geográficos e
territórios imaginários; e também suas extensões mecânicas,
estéticas, médicas: um corpo é um corpo e seu automóvel, um
corpo e suas roupas, um corpo e seus remédios. (...).
Nossos corpos nos “pertencem” muito menos do que acreditamos.
Não são propriedades nossas – eles nos ultrapassam. Eles são
falados e “incorporados” pela ideologia, pelo mercado, pelas
diversas modalidades da microfísica do poder. Por isso, os
ensaios de Denise Sant’Anna voltam-se para a questão de uma
ética dos corpos. A idéia de “passagem”, ao longo do livro,
vai de um extremo a outro de seus diferentes sentidos. Se no
primeiro capítulo a autora analisa a fugacidade e a
inconsistência dos corpos que percorrem os dispositivos
contemporâneos de passagem-sem-rito, representados pelos
aeroportos e hospitais, no final a idéia de passagem faz
referência a um modo de encarar a vida como devir, como fluxo
do tempo que não podemos deter, num corpo que é possível
compartilhar não só com os outros corpos mas com o mundo que
o rodeia.
Neste caso, a idéia de passagem pode ser entendida como
mudança de um estado para outro, afetando os corpos e a
subjetividade, como na possessão religiosa, no envelhecimento,
no êxtase amoroso, no êxtase criativo. Ao corpo do
individualismo narcisista que se pensa como imagem
perfeitamente fotogênica, envergonhado de suas vísceras e de
sua fisiologia; e também ao corpo-mercadoria transportado,
alimentado, retalhado, vendido e comprado pelo capital
global, científico, sexológico e turístico, opõe-se o
corpo-em-ato, corpo que se confunde com a ação que pratica,
afetando a natureza e sendo afetado por ela, tornando-se na
ação uma terceira coisa que não é fruto do poder de um sobre o
outro. Submissão e dominação neste caso dão lugar a um outro
modo de estar com o mundo, com o meio circundante, com o
outro. À brutalidade dos imperativos de felicidade a qualquer
custo, Denise opõe a sutileza, a delicadeza e uma certa
reverência diante dos enigmas da vida.
Sobre a autora
Denise Bernuzzi de Sant’Anna é professora de História da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Doutorou-se em 1994, na Universidade de Paris VII, com tese
sobre a história do embelezamento feminino. Publicou os
livros O prazer justificado: história e lazer (Marco Zero,
1994), Políticas do corpo (Estação Liberdade, 1995), e
diversos artigos sobre as relações entre o corpo e a cultura
contemporânea.
A autora sobre o livro
Estes textos “resultam de reflexões sobre a atual
valorização do corpo humano, acompanhada por sua intensa
exploração comercial. Expressam os limites do imperativo da
beleza e da saúde perfeitas, assim como a onipresença da
mobilidade corporal em expansão: silhuetas sempre de passagem,
percepções sem detença, indivíduos reduzidos a turistas,
consumidores vorazes de novidades, organismos liberados de seu
patrimônio cultural e genético, incessantemente ameaçados pelo
risco do descarte e do isolamento”.
Trechos
1. Sócrates e o peso
do corpo
“Por vezes, a necessidade de desacelerar e de viver
lentamente é inconsciente, involuntária, ou considerada
‘dentro do ritmo normal’. O adjetivo lento resulta de
comparações e é fruto de medidas, sempre culturalmente
determinadas, historicamente sujeitas a modificações
inusitadas. Quando a histórica conquista da velocidade cria
novas lentidões como se estas fossem somente seus opostos,
todo o peso material tende a ser percebido como mero
obstáculo a ser ultrapassado, aniquilado. O peso do corpo é
um deles. Sócrates já havia sido porta-voz de um antigo
sonho: escapar da resistência da matéria, pois “o corpo nos
causa mil dificuldades”. (p. 19)
2. Corpo fronteira
“Foi necessário, igualmente, transformar o corpo num
território privilegiado de experimentações sensíveis, algo
que possui uma certa inteligência que não se concentra
apenas no cérebro. Foi preciso, ainda, libertá-lo de
tradições e moralismos seculares, fornecer-lhe um status de
prestígio, um lugar radioso, como se ele fosse uma alma.
Desde então foi fácil considerá-lo uma instigante fronteira
a ser vencida, explorada e controlada.” (p. 70)
3. Economia do corpo
“...a economia está bastante interessada na realidade
corporal, sobretudo em nossos dias. Alguns economistas
chamaram a atenção para essa vocação do capitalismo atual de
investir em ‘três esferas infinitas’: a gestão da sociedade,
a reprodução da Terra (ar, água, vegetais) e a reprodução do
humano. O interesse econômico que o corpo desperta deveria
servir para esclarecer à sociedade quais são os grupos que
ganham e quais são os que perdem com a transformação das
diversas partes do humano em equivalentes gerais de
riqueza.”(p. 74)
4. Dolly e o prazer
sexual
“Se com a pílula anticoncepcional conquistou-se o prazer
sexual sem a reprodução da espécie, com as novas tecnologias
conquista-se o direito de reproduzir sem prazer sexual. A
inovação exposta na experiência que gerou a ovelha Dolly
comprova que é possível dissociar inteiramente a sexualidade
da reprodução. Mas a potência do gesto criador desta ovelha
não repousa apenas sobre essa dissociação. Ela expressa, em
grande medida, o quanto é flutuante o estatuto de seres
vivos criados pelas biotecnologias: qual seria, por exemplo,
o estatuto ontológico de toda a imensa população de seres
transgênicos? Quando um inseto é acoplado a um mecanismo
industrializado, como e onde classificá-lo?” (p. 93)
5. Corpo ignorante
“A histórica divisão entre corpo e alma expressa, em grande
medida, esta dificuldade, principalmente a partir da época
moderna, quando o corpo passou a ser visto muito mais como
aquilo que se tem do que aquilo que se é. Pelo menos nas
sociedades ocidentais, esta separação desdobra-se em muitas
outras, sempre afirmando que o pensamento é algo infinito e
inteligente, enquanto o corpo é finito e ignorante.” (p.
107)
6. Miséria sexual
“Pelo menos desde Marx, é sabido o quanto o capitalismo
fabrica miséria econômica, e desde Foucault sabe-se que a
liberação do sexo e sua colocação no discurso produziu
miséria sexual. Hoje, a produção da miséria do afeto por si
implica, imediatamente, a escassez de afeto pelo outro.” (p.
119)
7. O elogio da
sutileza
“Quando o cavalheirismo e a feminilidade se tornam palavras
de ordem, a sutileza é a primeira a se esquivar, a se cobrir
de vergonhas diante de suas sedutoras inflexões doravante
consideradas patéticas. Pois a sutileza inclui zonas de
sombra, e estas não significam caos nem, necessariamente,
silêncio. O gesto sutil é em geral potente justamente porque
sua força não se explicita de uma só vez, como se se
tratasse do último ou do melhor gesto. A sutileza não se
concilia bem com tais romantismos fatalistas, nem com a
necessidade de aproximar o começo do fim. Ela também não se
adapta ao fascínio pelas palavras (ou pelos gestos), que se
impõem como definitivos. De fato, a sutileza não é um
fast-food.” (p. 124)
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