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De senectude. O Tempo da Memória
Se o mundo do futuro se abre para a imaginação mas não nos
pertence mais, o mundo do passado e aquele no qual, recorrendo
nossas lembranças, podemos buscar refúgio dentro de nós
mesmos, debruçar-nos sobre nós mesmos e nele reconstruir
nossa identidade; um mundo que se formou e se revelou na
série ininterrupta de nossos atos durante a vida, encadeados
uns aos outros, um mundo que nos julgou, nos absolveu e nos
condenou para depois, uma vez cumprido o percurso de nossas
vidas, tentarmos fazer um balanço final.
É preciso apresar o passo. O velho vive das lembranças e em
função das lembranças, mas sua memória torna-se cada vez mais
fraca. O tempo da memória segue um caminho inverso ao do
tempo real: quanto mais vivas as lembranças que vêm a tona de
nossas recordações, mais remoto é o tempo em que os fatos
ocorreram. Cumpre-nos saber, porém, que o resíduo, ou o que
logramos desencavar desse poço sem fundo, é apenas uma
ínfima parcela da história de nossa vida. Nada de parar.
Devemos continuar a escavar! Cada vulto, gesto, palavra ou
canção que parecia perdido para sempre, uma vez reencontrado,
nos ajuda a sobreviver. |