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O vestígio e a aura
Os textos aqui reunidos analisam a
chamada crise de valores do contemporâneo a partir de
fenômenos como o culto ao corpo e à aparência, o consumismo e
a cultura da imagem. São textos marcados ao mesmo tempo pela
erudição, pelo rigor e pela ética. Embora pontuado pela
filosofia, pelas ciências sociais e pela psicanálise, este não
é um livro só para acadêmicos ou especialistas. A escritura de
Jurandir Freire, clara e por vezes poética, torna seu
pensamento acessível a todos os que se interessam pelas
grandes questões da existência humana e pelos impasses do
mundo de hoje.
Ainda que perplexo, como todos nós, frente aos fenômenos do
contemporâneo, o autor não se inclui em nenhum momento entre
aqueles que, de forma pessimista e catastrofista, alimentam a
idéia de que nossa época destruiu totalmente os valores éticos
e morais forjados pela civilização humana. Tampouco carece de
crítica ao pensamento que encontra a essência do humano num
âmbito ideal, além dos desejos e aspirações materiais. Nas
nossas preocupações, atitudes e sentimentos relacionados ao
corpo, ao consumo e à imagem subjazem, segundo Freire, a
pequenez e a grandeza do humano: “Refletir sobre
destradicionalização não é dotar o passado da aura que o
magnifica, nem reduzir o presente às ruínas do que passou. Os
valores, tradicionais ou não, são deste mundo.”
Sem concessões ao meio termo ou ao lugar-comum, Freire navega
entre o que Walter Benjamin chamou de vestígio – “o
aparecimento de uma proximidade, por mais distante que esteja
daquilo que a suscita – e a aura – o aparecimento de uma
distância, por mais próximo que esteja aquilo que a suscita”.
E segue com grande sensibilidade a recomendação de Bergson:
“Onde houver uma contradição, faça uma redescrição! Mude a
perspectiva de observação, troque as premissas dos
raciocínios, explicite os acordos tácitos que fundam as
conclusões consensuais e, por fim, submeta a sua opinião à dos
outros. No mínimo, o que parece sem sentido ganha um novo
sentido; no máximo, recuperamos o tônus da vontade de sentir,
pensar, julgar e agir em liberdade”.
O resultado é uma análise lúcida, questionadora, profunda e
engajada, características que marcam a obra de Jurandir Freire
Costa, um dos mais importantes pensadores brasileiros da
atualidade.
* Jurandir Freire Costa nasceu num
pequeno vilarejo de Pernambuco em 1944. De lá saiu aos 15 anos
e foi para Recife, onde formou-se em Medicina. Logo depois
viajou para Paris, iniciando sua formação psicanalítica, no
internato em Psiquiatria e um trabalho em Etnopsiquiatria na
École Pratique des Hautes Études. Voltou ao Brasil e fixou
residência no Rio de Janeiro, cidade na qual terminou sua
formação psicanalítica. É membro do Círculo Psicanalítico do
Rio de Janeiro e professor da Universidade Estadual do Rio de
Janeiro (UERJ), no Instituto de Medicina Social (IMS), onde
desenvolve suas pesquisas e orienta dissertações de mestrado e
teses de doutorado. Ele não se considera um Dom-Quixote numa
sociedade programada para outro tipo de sucesso ("Não somos
filhos de economistas e sim do sonho alucinado de Rousseau e
Diderot"). É um dos maiores pensadores que o Brasil tem
atualmente. Tal percurso de vida faz com que Jurandir observe
o mundo com certo relaxamento, o que explica sua simpatia à
relativização e à não-universalização dos valores. É esse
caminho pessoal que marca seu intenso envolvimento ("meio
militante e intempestivo", diz ele) e a impossibilidade de
adotar o "tom exato da discussão acadêmica" quando discute
suas idéias. Preocupado em entender as circunstâncias do
exercício da psicanálise no Brasil, Jurandir dirige sua
atenção principalmente para a pesquisa sobre a violência
contra as minorias de qualquer ordem. Mas também já voltou sua
atenção para as psicoterapia de grupos, as instituições
psiquiátricas, as questões éticas contemporâneas, a
redescrição de pressupostos psicanalíticos através do viés da
filosofia pragmática, já analisou a identidade homoerótica e
as teorias psicanalíticas que tentam dar conta dela, pôs em
cheque o ideário do amor romântico contemporâneo, entre tantos
outros assuntos de seu interesse.
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